terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A imagem da vida



Construir uma vida
é como decifrar um puzzle gigantesco
onde algumas peças
simplesmente não encaixam
na imagem que é preciso formar.

À medida que vamos dispondo
os ínfimos fragmentos do puzzle,
numa paciência chinesa
que nos arrasta pelo suor dos dias,
a imagem vai-se transfigurando,
como a miragem que se dissipa
sempre que achamos
ter encontrado o oásis
ou decifrado o enigma.

Só muito mais tarde,
ao chegar o fim do caminho,
é que o puzzle finalmente se completa
e que podemos descobrir
a face obscura da imagem
que andámos, anos a fio, a montar.

E ai, então, descobrimos
que ela é apenas um espelho
onde esbatido se reflecte
o nosso rosto aprisionado.


poema escrito em 2010-12-27

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Poema de Natal



O poema é como um pequeno pinheiro branco
que decoramos com a tinta das mãos sujas,
quando o inverno cospe as neves solitárias
e a alma se fecha no musgo de um sótão vazio.
De joelhos, sobre o mármore corrompido do soalho
estendemos enfeites, como criança ávida de carícias:
Pequenas bolinhas de fantasia puída;
velhas luzes já sem cor nem brilho;
um rastilho de silêncio e sonhos entrelaçados
no matizado serpenteante das fitas;
e, por fim, no topo da árvore, as estrelas cadentes
que tombaram dos céus arruinados da infância.

Tudo isto, numa estranha mescla de nostalgia,
para celebrar o natal de todas as nossas agonias.


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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Deuses da chuva



Sob as ruínas envelhecidas dos impérios
velhos deuses gemem em surdina
reduzidos ao mármore do esquecimento

Incapazes de perceberem onde estão
ou que o passado se esgotou há muito
vagueiam pelos abismos das cidades
que se ergueram na poeira dos altares
onde outrora foram invocados

e aguardam, numa angústia de pedra,
que os homens recobrem a memória
e de novo lhes peçam para fazer chover
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domingo, 12 de dezembro de 2010

Ubiquidade



Podias ter vindo hoje,
como quem chega de longe,
rompendo o silêncio da manhã
num voo de velas desfraldadas
ou num canto súbito de rouxinol
anunciando a primavera.

Podias não ter vindo hoje,
perdida numa maré de nevoeiro,
sem encontrar o caminho,
deixando-me preso à margem deserta
de um rio de águas estagnadas
como um barco sem rumo.

Podias ou não ter vindo hoje,
encher meu dia de luz ou sombra,
que não impedirias a noite de cair
nem o vento de bater nas janelas
ou que os cães latissem à lua
incapazes de compreender o futuro.

O que te queria mesmo dizer,
tivesses ou não ter vindo hoje,
é que sempre estarás dentro de mim,
mesmo nos dias em que nunca vens.


poema escrito em 2010-12-11

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Desbravando mares gelados



Éramos como pequenas naus de um mar atribulado
junto à rebentação das vagas nocturnas.
Fantasmas costeiros de uma sede vertiginosa
à deriva nas águas de um futuro sem horizontes.

Pulsos atados aos vapores turvos do vento
e ao leme de bússolas sem qualquer norte,
percorríamos a cartografia das vielas dispersas,
com a ânsia entorpecida das marés de verão
a desbravar pontões de areia e nevoeiro
na espuma gelada de canecas transparentes.

Entre a insónia estilhaçada das correntes
e os velhos portos onde sempre atracávamos,
dávamos à costa na dormência das algas encharcadas,
em busca da luz amputada na incerteza das manhãs,
onde repousávamos o cansaço de velas retalhadas
nos limos exaustos das tempestades sem rumo.



poema escrito em  2010-10-27

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

À espera de um rasgo de inspiração



O inverno demora-se
nos lábios frios do poeta.
Um obscuro bater de portas
sacode os rebordos da folha vazia,
agora que a luz definha
ao fundo dos corredores decrépitos
onde o vento range
sob um poente de sombras gastas.


Alimento a sede dos tinteiros
com o sangue pisado das sílabas
e com os versos que restam
nos parapeitos cinzentos da memória,
debruçado sobre a madrugada solitária
das linhas que nunca escrevi,

à espera de um rasgo de inspiração.


poema escrito em 2010-12-06

domingo, 5 de dezembro de 2010

Domingo de manhã



Debruçadas sobre o equilíbrio ferrugento dos estendais,
envoltas ainda no turco quente e fofo dos pijamas,
as mulheres estendem a pele lavada
que os maridos despiram, sexta feira ao fim do dia,
fingindo que está um lindo dia para enxugar a roupa
e as feridas que teimam em sangrar.

Levando pela trela cãezinhos amestrados,
com o ventre inchado de fezes e urina
e um apetite alucinado por relva tenra e húmida,
os homens, em coloridos fatos de treino,
descem ao verde agoniado dos jardins.
Acendendo um cigarro, inspiram profundamente,
enchendo os pulmões com a insónia da manhã
e fingindo acreditar ainda, numa patética
e esbatida ilusão de liberdade.

É domingo de manhã.
O sol espreita timidamente
por detrás de carrancudas nuvens
que nada sabem do ritmo dos dias
e ameaçam a fragilidade parda do horizonte
com seus punhais de chuva e solidão.
Lentamente, esmago a ponta de cigarro
no espanto encardido do cinzeiro,
bato com o vidro duplo da janela
e regresso ao silêncio adiado do quarto,
desligando-me de novo do mundo
e das arrefecidas divagações matinais,
fingindo, também,
que, hoje, alguma coisa irá mudar.


poema escrito em 2010-11-30

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Maré negra



Do outro lado da margem,
onde o sol é apenas miragem,
negros pássaros sem asas
vasculham nas areias escassas
alguma réstia de fé
nos
despojos imundos da maré.

Do outro lado da margem,
no seio vago da voragem,
pequenos fantasmas desvalidos,
estendendo os braços caídos,
buscam no lodo do baixio
seus sonhos afogados no rio.


poema escrito em 2008-02-24

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sonhos de argila



Talvez um dia
o destino se baralhe
no rumo trôpego dos seus passos
e eu te veja chegar,
num golpe súbito de asas,
por entre as serpentes ondulantes
de uma miragem.

Talvez eu ainda te espere
debaixo de uma chuva ácida
que me corrói o desejo,
e tu, dobrando a esquina
dos becos soterrados no peito,
com o arco secreto do teu ventre
acendas uma luz colorida
na íris desbotada do meu rosto.

Talvez a vida, afinal,
seja apenas um sonho confuso
onde tudo é permitido
e, despindo a argila que te cobre,
tu rasgues todas as distâncias
e me estendas tua mão,
no fugaz esplendor
de uma estrela cadente.


poema escrito em 2010-12-01

domingo, 28 de novembro de 2010

2012



Sondo o futuro
com os olhos apocalípticos do profeta
bebendo a treva do caos
na malga de sangue
dos impérios desmantelados.

À minha volta,
tudo se desmorona
numa vertigem de sinos
e ânforas quebradas.

Todos os sinais se completam.
Todos os horizontes se fecham
no ponto sem retorno
do fim dos caminhos
e no clamor dos abismos
a retornarem ao pó e às cinzas.

Atrás do reposteiro escuro
do consumar dos séculos
desfolho, lentamente,
as ultimas folhas do calendário,


o derradeiro salmo dos condenados.


poema escrito em 2010-11-27

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Amores moribundos



Ouço ainda o rumor dos teus lábios de cinza
a espernear de encontro às tábuas gastas do meu peito,
e dou por mim, num delírio febril,
a murmurar as sílabas nostálgicas do teu nome,
que dançam, numa vertigem de fumo,
ensombrando os versos obscuros do poema.
Um pássaro de cera derretida,
pousado no luar arruinado dos meus ombros,
digere a ressaca de um eco distante,
no vazio destroçado do papel,
onde tento fixar as últimas sombras
do teu sorriso desfeito.

Vozes escondidas murmuram nos recantos da memória
a litania decadente dos ventos,
invocando, num ranger de ossadas,
a réstia contaminada de remotos sonhos
enterrados dentro de mim.
Sacudindo o feitiço,
acendo as palavras efervescentes do teu nome
e deixo-as, a queimar, no rebordo encardido do cinzeiro,
entre duas baforadas de fumo baço
e a insónia lenta da tua ausência,
renegando para os confins do poente
aquilo que já não me serve.

Esta noite, num derradeiro gemido,
entrego o teu rosto calcinado
às chamas fugazes do esquecimento
e, definitivamente, te fecho a porta.


poema escrito em 2010-11-18

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Segunda-feira


Lavo a cara com o primeiro café da manhã
que derrete a remela no fundo cego dos meus olhos
e me ajuda a suportar o choque oblíquo dos raios solares
que se riem, por detrás da colina, do meu rosto desbotado.
Acendo uma nuvem de fumo denso e sufocante
que me guia na orla convulsa da rebentação
e caminho encostado à cal efervescente dos muros,
com a mágoa de quem vai recomeçar tudo de novo
e uma vontade moribunda, presa por gastos arames.

Sirenes de chumbo rasgam o orvalho preguiçoso
e vêm pousar as garras nos meus ombros curvados
que arrastam o passo nas alamedas da madrugada
por entre o rumor azedo de roldanas cariadas
e o grito estéril do cristal vacilante das manhãs.

Acendendo o rastilho das horas que me vão devorar,
alumiadas pelo pasmo renitente das gambiarras do vento,
escondo o corpo nas prateleiras enferrujadas do armário
junto com a roupa que penduro em cabides de plástico,
e é já só minha sombra quem trespassa o vítreo portal
mergulhando a pique nas ravinas viciadas da semana.




poema escrito em 2010-08-19

domingo, 21 de novembro de 2010

Tédio



No silêncio da pedra esculpida,
almas sem identidade
mergulham na sonolência dos arbustos,
à sombra dos jardins arruinados,
conspirando, num esgar de imobilidade,
a secreta cegueira do tédio
no musgo das primaveras encalhadas.


poema escrito em 2010-11-18

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cada vez que respiramos



Cada vez que respiramos,
um incêndio de sol
rasga, num sonâmbulo equilíbrio,
a bruma cega do mármore,
abrindo uma nova janela
no litoral negro do abismo.

A pulso,
um pássaro de oxigénio
escala a engrenagem metálica
de um sinuoso horizonte,
irradiando,
num silêncio de narinas,
o cristal sereno das marés,
pousadas numa ilusão de eternidade.


A mortalha breve do tempo,
aspirando o pólen matinal,
suspende o abraço de gelo
que cerca a métrica azul
de uma metamorfose de estrelas,
adiando uma vez mais
o bordado húmido da terra
e resgatando, ao pranto dos labirintos,
o voo suspenso da quimera,

cada vez que respiramos,
iludindo
o murmúrio transparente da morte.



poema escrito em 2010/11/17

domingo, 14 de novembro de 2010

Duas datas e um nome


Duas datas decoram a lápide velha
sobre o musgo da terra revolvida.
Um principio e um fim.
A definitiva duração de uma existência
reduzida ao mármore frio dos números;
herança derradeira de um sonho corrompido,
a ser devorada pelo vazio silencioso.

Por cima dessas duas datas,
que traçam o diâmetro de uma vida
cujo circulo se fechou,
um nome esculpido com letras negras
é tudo o que resta de uma efémera história,
o parágrafo breve e derradeiro de uma página
abandonada ao rigor dos invernos
e à desolação sombria do esquecimento.

Ninguém mais recorda esse nome
que o chão um dia engoliu
no ermo incógnito das colinas,
onde a tristeza datada de uma lápide
retém o único sinal da sua passagem.


poema escrito em 2010-11-08

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Rugas


Sinto-me a transformar na sombra de um outro eu
que emerge na febre das margens puídas,
onde um esgar de espelhos deformados
desenha os mapas de uma erosão vertiginosa.
Um arado de unhas encrespadas e frias
abate-se sobre as cearas do meu corpo,
rasgando o efémero vigor destas muralhas
contaminadas pelo orvalho corrompido do poente.

A sombra trémula de um manto de ruínas
obscurece a laje encardida do meu rosto,
onde o musgo velho da pele retraída
rumina o gelo de estranhas conspirações,
e o efémero brilho de uma frágil luz
ancorada num sonho de eterna juventude
se desfaz na penumbra crepuscular
de um eclipse de primaveras amputadas.

Sucessivas marés fustigam as falésias
com chicotes de lama e despojos de ventania,
deixando nos átrios devastados da rebentação
um labirinto de caminhos bifurcados,
onde o fulgor esbatido da minha face rasgada,
se perde na sombra disforme de um outro eu.


poema escrito em 2010-11-09

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Memórias fugidias



Chegaste na luz dos pássaros
que rebentavam nas gengivas da manhã
agitando rumores dispersos
no cascalho corroído do céu da boca

mas logo te desfizeste numa nuvem de pó
quando esfreguei o cio das olheiras
e tentei morder os lábios


poema escrito em 2010-08-21

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dia dos mortos



Flores frescas na laje fria
decoram a solidão dos sepultados,
o luto saiu em romaria
celebrando o dia de finados.

Faces de dor tatuadas,
pequenos corações em pranto,
no mármore das campas seladas
o epitáfio triste do desencanto.

Mãos fechadas contra o rosto,
altar de sonhos vencidos,
orações e silêncio deposto
em honra dos entes perdidos.

Na névoa da manhã que esfacela
ressoa o cortejo do sofrimento
e o ranger aflitivo da cancela
batida pelos punhos do vento.





poema escrito em 2009-05-31

sábado, 30 de outubro de 2010

No silêncio do teu corpo adormecido



É quando dormes,
no silêncio arrefecido das noites profundas,
que desperta em mim
o esplendor amadurecido do teu rosto.
Envolto no musgo inocente dessa juventude gasta
bebo os resíduos palpitantes da tua respiração,
atravessando as colinas do teu corpo retalhado
onde revejo as encruzilhadas que cruzámos,
de mão dada,
contornando o vazio dos abismos
e fugindo às armadilhas traiçoeiras do deserto,
de oásis em oásis,
onde nos deitávamos à sombra do veneno dos dias.

Tão perto e tão longe te acho agora,
mergulhada nas margens de um rio cansado,
fechada numa concha obscura
no mais fundo que há em ti,
onde em silêncio digeres
lágrimas antigas que não derramaste.


Dormes.
Olhos pousados no espanto do infinito,
vagando na glória indefinida de um sonho,
construindo mundos atrás de uma porta entreaberta
onde buscas o equilíbrio
perdido no pesadelo escarlate das horas.
Moves-te, sem gestos,
num arfar sereno e perfumado;
pequenos gemidos que crescem no sono,
numa litania que te embala o corpo
e sobressalta a inocência da tua nudez
debruçada sobre as asas da madrugada.

Quase nada sei de ti.
Dos segredos que ocultas, nos labirintos do peito,
e que são só teus,
apenas vislumbro rumores desvanecidos
ecoando nos espelhos da ventania
que agitam, ao de leve, a tua sombra suspensa.
Embora tenha penetrado, vezes sem conta,
os abismos profundos do teu corpo,
em lentas e repetidas viagens
saciando o fogo de estranhos desejos,
e plantado na luz suave do teu ventre
as sementes que nos hão-de perpetuar,
quase nada sei de ti.

No silêncio amanhecido do quarto,
sigo os primeiros atalhos
da luz que esvoaça nos patamares
da tua respiração suspensa,
acordado a teu lado,
a soletrar as batidas do teu nome,
num sussurro de lençóis incendiados,
tecendo no brilho secreto do teu rosto
um rosário de eternas lembranças,

à espera que o sol se levante no horizonte
para vir saudar as núpcias do teu despertar.



poema escrito em 2010-06-26

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Último alento de um poeta moribundo


Imagino como será o derradeiro acto
da vida de um poeta caído em desgraça,
definhando num covil de trevas e abandono.
Alguém que, como eu, nunca foi capaz
de ultrapassar as barreiras do anonimato
e que sente o tempo fugir-lhe, irremediavelmente.
Consumido pelo peso de uma velhice precoce
ou pelo veneno de uma doença terminal,
vejo-o, num quarto acanhado e escuro,
uma alcova barata de pensão decadente,
a braços com o último alento de um corpo
cuja chama agoniza à sombra da glória.

Mergulhado nas convulsões de um alucinado torpor,
amaldiçoa o tempo inútil que foi gasto
à sombra de um caderno velho e rabiscado,
como um desterrado eremita do silêncio
nas obscuras profundezas de uma capela,
longe das multidões e do clamor prostituído da vida,
em busca de uma qualquer palavra escondida;
um verso novo que brilhasse no escuro,
uma estrofe que soasse a eternidade,
um poema que o projectasse definitivamente
para lá das paredes húmidas do quarto esconso.

Nada disso lhe interessa, agora que
uma agrafia obscura lhe tolhe as sílabas
e o tempo se esgota na ampulheta corrompida.
Nenhuma palavra poderá já redimir
todas as que lhe faltaram no tempo certo,
todas as oportunidades que deixou escapar,
todas as acções que nunca realizou;
por falta de coragem e determinação,
por falta de um rasgo de inspiração,
ou, simplesmente, por falta de arte.

Seu derradeiro combate é travado agora
muito para lá das margens gastas do papel,
num horizonte pantanoso e febril
onde se afunda toda a glória rejeitada.
Uma vertigem de sílabas dispersas e sem cadência.
Uma grotesca e perversa metáfora
que não cabe já no silêncio das suas palavras
nem rima com um sonho que loucamente teceu.

Derradeiro verso de um obscuro poema
Que jamais será revisto.





poema escrito em 2010-08-10

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Solstício de inverno



Ao fim do dia, a mente exausta
já só encontra palavras gastas
para seguir o declínio aparente
da derradeira luz que se extingue
num equinócio de primaveras corrompidas.

As pálpebras rangem
seguindo a cadência dos relógios
pendurados na monotonia das paredes,
num arrastado bocejo
à volta dos 12 signos do dia.

No hemisfério gélido das marés
a cinza derretida do luar
tinge veias rasgadas
de um caudal de anjos decapitados,
afundados
no estuário sombrio do meu voo.

O que resta de mim
é aquilo que a insónia do vento
deixou nos rebordos da pedra,
as longas noites de sombra
cobrindo a face do horizonte,
um ocaso de ruínas
engolindo meu corpo fatigado,
e interrompidas quimeras
de um solstício de moinhos petrificados.


poema escrito em 2010-10-17

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Invisível




Lentamente fui perdendo o pé
num éter de estranhas sensações.
Perdi o brilho e a cor,
dispersei-me nas asas do vento.
Afogado no gelo do vazio,
para lá da linha do horizonte,
entreguei meu corpo retalhado
às aves famintas do pântano,
segui o eco da tua ausência
e, finalmente, tornei-me invisível.





poema escrito em 2009-03-08

Extrema-unção




Suspenso sobre o pórtico exausto do abismo
cerca-te a vertigem derradeira do poente.
Dois braços estendidos em sinal de cruz
abrem caminho na cartilagem escura da noite,
onde amanhece um rumor de carpideiras,
entre o equilíbrio fugaz do último verso
e o silêncio súbito nas pálpebras do vento.



poema escrito em 2010-08-31

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Passaporte para novas dimensões




Todos os dias
vejo o sol nascer e se suicidar
no mesmo patíbulo sujo de sangue
e entranhas dilaceradas,
numa asfixiante perspectiva
despida de qualquer encanto.
Prisioneiro dos despojos das manhãs
e duma estranha geometria do vazio
vivo acorrentado ao pedestal gradeado,
como uma estátua de asas de chumbo,
sem respirar.

Vivo numa fornalha de incandescentes sensações
onde os sonhos se fundem,
atrofiados,
nas chagas rasgadas do entardecer,
sem saber ainda, se será teu corpo
passaporte para novas dimensões,
ou apenas o secreto desejo
de escapar, por momentos,
desta teia que o destino me bordou.






poema escrito em 2009-04-25

domingo, 10 de outubro de 2010

Infinita paciência do tempo



Não sei de onde vim, nem o que sou
por detrás desta máscara de terra batida;
pálido reflexo de anjo adormecido
no silêncio de um areal de trevas.
Sei apenas que vim de longe,
dos remotos desertos da existência
e da poeira moribunda dos séculos,
como um peregrino sem norte
na solitária busca de uma miragem
para lá dos horizontes de janelas interrompidas.

Nos meus braços enredam-se sonhos mortos
e uma teia de abismos encadeados,
e tudo parece tão anestesiado e distante
neste turvo cenário de labirintos cruzados
e decadentes enigmas sem solução,
onde, fria e ondulante,
se espraia a mordaça da solidão.

Sem revelar minha identidade,
sigo o apelo sufocante dos sentidos
no dobrar decrépito de sinos distantes,
sempre a fugir do naufrágio
e do sombrio perímetro do gelo,
iludindo o peso ancestral dos mitos
e a precoce morte das manhãs.
Sem poder voar,
atravesso a nado os penhascos da dor,
visto-me de dissimuladas aspirações
e me escondo na aparência gélida das estátuas,
forjando escudos de alento
no seio da mentira que me cerca,
em busca de dias melhores.

Digerindo o fúnebre veneno destes dias
e as carícias melancólicas do gelo
no vidro polido do meu rosto,
enterro meus segredos no bojo do areal,
desato os nós ensebados da indiferença,
e finjo sofrer da mesma alucinação colectiva
que tolhe os ossos paralisados dos espantalhos.

Só não consigo
iludir a infinita paciência do tempo.






poema escrito em 2010-05-01

Paisagem nocturna



Panos negros ondulam no parapeito das janelas.

Estranhos tambores rufam nos patíbulos do crepúsculo.

O carrasco dos sonhos desenha uma forca de silêncio
com as letras ensanguentadas do meu nome.

Um ranger de vozes e pedras soltas
percorre o restolho solitário dos meus passos;

algures, entre os declives acentuados do fosso
que separa as estrofes que nunca escrevi
e a mortalha de estacas que abraça o vazio
onde teço os últimos fios da paisagem nocturna.



poema escrito em 2010-08-15

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Álbum de família



Sobre o mogno escuro dos meus olhos
estendo o velho álbum de fotos de família
e deixo os mortos respirarem, por instantes,
a luz estagnada deste entardecer.

A preto e branco, os fantasmas da memória
regressam com seus fatos domingueiros,
sacudindo a poeira de uma resignada ausência.
As mulheres trazem sorrisos manchados de tristeza
evocando o fascínio das eras de outrora
sepultadas nas ruínas de uma névoa distante
e, os homens, cofiando longos bigodes,
conservam ainda o mesmo ar taciturno e pose viril.

Míticos rostos que perderam o dom da fala,
mas que as esponjas da morte não apagaram totalmente
lá nas tumbas frias e perdidas onde pernoitam.
Imagens que se acendem nas lareiras da saudade,
ao som melancólico de uma extinta banda de coreto,
rasgando véus e teias de um esconso abismo.

Durante algum tempo, suspendo a fúria dos relógios,
e deixo que os mortos, num pestanejar de cinzas,
cruzem as paisagens arruinadas da manhã,
recordando sua breve passagem pelo mundo;
antes de recolherem de novo ao vazio enclausurado
do abandono sombrio onde agora pertencem,
esgotando o brilho efémero que subitamente se dilui
no baque crepuscular da contracapa.


video


poema escrito em 2010-07-28

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lunáticos



nos jardins de chuva branca
poças de água estagnada
dão as mãos e digerem o vazio
com as asas a arrastar pelo chão

estilhaços dispersos de lucidez

lufada de bronze cuspida na cara

alucinante delírio de embarcações
encalhadas nas margens do rio


e três metros de solidão
num varal de cinzas, estendidos ao vento






poema escrito em 2010-07-30

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Numa varanda do labirinto


Sentei-me numa varanda do labirinto,
a ver a noite desfiar um rosário de sombras vagas
e a arrastar no assoalho dos céus
o vestido rasgado pelas mãos sujas da ventania.
É meia noite e chove.
Espreitando entre véus de algodão pardo
a Lua devora um naco de escuridão.
Um cutelo de água fria, esventra
o corpo adormecido da calçada.
Repetidamente o esfaqueia, até se cansar,
e, num ápice, se transforma num lençol transparente.

Um caranguejo de lama, vagueia pelas esquinas,
batendo a todas as portas.
Num enregelado delírio,
palmilha os rochedos de alcatrão,
espirra nas margens de uma sarjeta,
e vai desovar no seio das vielas.
Ao longe, um rumor de vozes fervilha,
como inquieto lamento de mil tambores.
E eu, aqui, numa varanda do labirinto,
hesitante, entre esperar o amanhecer
ou me render aos fantasmas do sono.






poema escrito 2008-09-18

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Insónia profana



No silêncio das noites de insónia
vultos febris rondam
as areias remotas dos desertos
soterrados dentro de mim.
Salteadores sem rosto nem identidade
envoltos em turbantes de poeira
vêm, à luz de velhas tochas,
pilhar os túmulos arrefecidos da memória.

Acampam em tendas de ventania
nos vales extintos do passado;
batem com as picaretas no solo,
enfiam as pás nas fendas esconsas
e escavam, revolvem, profanam
as riquezas e misérias deste templo,
trazendo à luz anónima do luar
aquilo que estava destinado à escuridão
e às sepulturas eternas do esquecimento.






poema escrito em 2010-08-04

Sonho de poeta


Vive dentro de mim
uma voz que me sussurra
estes versos que reinvento
no coração das horas solitárias.
Uma voz sem idade nem rosto
que me guia os dedos trémulos
pelos labirintos de papel
onde desenho o movimento do mar
e as cores do poema,
como um barco de fumo
que passa sob a ponte invisível
cruzando as margens distantes
de um imenso e descampado rio.

Não sei a quem pertence
esta voz rouca que me habita
e me enche os pensamentos
com o ritmo sufocante
de um ardente respirar.
Um sotaque de ventania
a assobiar dentro das sílabas;
o pulsar ofegante de um desejo
que me impele constantemente
a arranhar a face lisa desta folha,
numa busca cega pelo equilíbrio
de um punhado de palavras
que talvez ninguém vá ler.

Dentro de mim,
nas janelas abertas deste túmulo,
vive o sonho de um poeta.






poema escrito em 2010-08-02

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hora de partir



São horas de partir.

O sol dobra já as colinas do poente.
Os relógios marcam o tempo de dizer adeus.
Faz as malas e despede-te,
como quem se precipita das inadiáveis alturas
de um solitário pontão.

A casa fervilha de inquietas sombras.
Acendem-se lâmpadas frias no cais cinzento.
Os últimos ventos
dançam na penumbra das camas desfeitas.
É tarde para sonhar.

Azedam as horas no lume brando dos ponteiros.
Rangem dobradiças velhas na ferrugem dos portões
que se abatem sobre as rugas de um fôlego derradeiro.
São horas de partir.

O tempo não espera por ninguém.






poema escrito em 2010-08-01

Último capitulo



Meu pai morreu!

Numa fria manhã,
num anónimo dia de Inverno,
o gongo soou,
estridente,
e ele, recolhendo sua bagagem,
partiu,
sem rebuliço, nem lamentações.

Por mais de sete décadas,
com grande tenacidade, resistiu,
a ventos adversos
e aos sombrios desígnios da tormenta,
sem se afastar da rota traçada
nem ceder
ao sibilar encantado das serpentes emboscadas.

Atravessou rios e mares,
lutou, nadou e esbracejou,
e agora,
que o peso da matéria se tornara
a cada dia mais insustentável
e seu espírito extenuado
por longo e penoso cativeiro
não mais podia suster o fôlego
e a ânsia de rasgar novos horizontes,
com inabalável fé se entregou
à brisa da manhã que despontava,
aliviado dos anos e das dores.


Meu pai morreu!

Mais que o extinguir de uma chama,
é uma nova luz que se acende
na treva do seu caminho,
uma página que o vento virou,
e um capitulo mais que findou
de sua eterna história.
Último capitulo de um pequeno livro
e, ao mesmo tempo,
novo capitulo de um novo livro.



poema escrito em 2003-07-16

domingo, 26 de setembro de 2010

Tela mística

Poema inspirado na tela, acima, da artista plástica
Florbella (Reinadi Samapio), pintada apenas com
o dedo indicador, em óleo sobre tela.


Queria pintar uma tela onde te louvar
Sem pincéis, tinta, ou outro material
Só com a luz serena do teu olhar
A colorir uma paisagem intemporal

Queria acender um sol perfumado
Que reflectisse teu sorriso radiante
E projectá-lo num céu exaltado
A iluminar meu horizonte distante

Queria desenhar o mar profundo
À sombra dos teus braços abertos
E o amor que derramas no mundo
Num cenário de anjos despertos

E como a gaivota liberta de medos
Em que na tela me irei transformar
Voar sobre o cume dos rochedos
E no coração da tua luz mergulhar






poema escrito em 2010-09-26

Espíritos mortos

 

Abrem-se os túmulos
e de suas profundezas seladas
rasgando as mortalhas
emergem os espíritos mortos

Furtando-se à vaga escuridão
dos eternos sonhos errantes
voltam do silêncio do sepulcro
e sem lugar onde repousar
vagueiam de candeias acesas
na noite parda da nossa memória



poema escrito em 1988-03-15

sábado, 25 de setembro de 2010

No gelo da vidraça



Algemada aos caixilhos da janela cerrada,
Estendes o azul crucificado do teu olhar
Na direcção da chuva que cai estrangulada,
Afogando a luz lamacenta de um sórdido luar.

Como um barco ancorado num cais sombrio,
Vês a vida esvoaçar nos varais da maré, lá fora;
Miragem que naufraga nas águas de um vazio
E no errante exílio desse sonho que demora.

Um triste abismo cerca as falésias desse miradouro
Onde invocas a dor de uma ausência que te cega
E, o alento, em apagadas cinzas se desagrega.

Derramando o dolente veludo do teu choro,
Embalas o grito da saudade que te abraça,
Desenhando corações partidos no gelo da vidraça.



poema escrito em 2010-05-04

Um lugar para enterrar o coração


Quando duas pessoas se amam,
quase sempre uma delas está enganada!

Que pensará a outra do amor,
quando esta descobrir o erro
e lhe cravar as garras no peito?

Continuará a crer no amor
ou, profundamente ferida,
buscará na solidão
um lugar para enterrar o coração?



poema escrito em 1992-01-19

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Movimento migratório


Dizer outra vez que te quero,
talvez solucionasse o problema,
mas retenho ainda o receio
que o eco repetido da tua resposta
me persiga dentro da noite,
com um chicote de catafonias
a castigar os flancos desta ilusão.

E nada digo.


Desenho um coração esbatido,
com o silêncio dormente dos meus lábios,
à espera que abras as janelas
e respires o pólen destes versos,
antes que o vento se revolte
e te martele furiosamente no peito
o desejo atroz de abrir asas
e voar, de novo, para além do sonho.



poema escrito em 2010-08-24

Não sou quem tu vês



Eu não sou quem tu vês
e meu rosto não fala por mim.
Procura dentro de mim,
aquilo que está escondido,
aquilo que teus olhos não vêem
e teu coração não percebe.
Procura dentro de mim,
o sonho e a fantasia,
a beleza e o amor,
o que arduamente persegues,
porque eu não sou quem tu vês
nem meu rosto fala por mim.



poema escrito em 1990-09-26

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uivos do vento



As crianças não se deixam iludir
pelo canto mórbido das primeiras águas do inverno.

Rasgando o aço de uma cinzenta apatia,
atravessam o frio que cerca as manhãs,
enfiam os pés nas poças da lama,
oferecem o corpo às setas da chuva
e uivam, bem alto, o hálito branco da revolta.



poema escrito em 2010-09-01

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Cegueira



Numa inércia de condenados, mergulhei
nas águas profundas de um lamento, à espera
que a humidade da noite lavasse o pus das feridas
e o rasto vagaroso dos dias
apagasse a serapilheira da tua sombra renitente,
que insistia em assobiar nas janelas,
como um murmúrio de pássaros negros.

Bebi a dor nas águas inquinadas do fundo do poço,
onde não chega o cântico das manhãs
e as folhas arrancadas pela fúria do outono
ensopam a luz dos sonhos derramados.

Com o suor azedo dos meus versos
cimentei as fendas rasgadas no peito,
por onde me invadiam as heras da solidão,
nas noites em que recordo teu perfume distante.
Lentamente, resgatei o corpo e a alma
à viuvez selada do meu coração.
Mas continuo cego. Sem nada ver.

Feitiço algum me devolve a luz do olhar,
após ter sido contaminado pelo clarão do teu rosto.



poema escrito em 2010-09-02

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ba(da)lada do tempo



Ao soar a meia-noite
Esguicha o sangue das horas
Nos espelhos que se quebram
Ao toque frio das esporas

Braceletes de fumo baço
Estendem-se para lá do poente
Num tempo que já não é passado
E que ainda não é presente

Ao soar a meia-noite
Demónios saem do abismo
Trazem injectadas nos olhos
Marcas brancas de sonambulismo

O tempo entra em colapso
E se afunda num charco de lodo
Lamento apunhalado da presa
A estrebuchar nos braços do engodo

Ao soar a meia-noite
Sussurra o vento nas janelas
E as sombras tatuadas do medo
Andam descalças nas vielas

Não é tarde nem é cedo
No fundo do poço dormente
Fronteira entre o que foi passado
E o que aspira ser presente

Ao soar a meia-noite
Levanta-se o véu da rotina
Mãos erguidas acima dos punhos
Em densas espirais de nicotina

Doze pancadas na porta
Selam um segredo clandestino
Grito rouco que se acende
No orgasmo pálido do destino

Ao soar a meia-noite
Ardem as horas no lume
E a penúria vaga dos ponteiros
Deposita raízes no estrume

No ventre prenhe da madrugada
Cresce o corpo embuçado
Do tempo que ainda não é presente
E nunca será passado

Ao soar a meia-noite
Tombam anjos no labirinto
Pétalas murchas que fenecem
Em turvos jardins de absinto

Nos relógios sem freio
Cavalga a silhueta vazia
Do tempo que não pode esperar mais
E ameaça rasgar o dia

Ao soar a meia-noite
Não há passado nem presente


Declamado pela poetisa Reinadi Sampaio


poema escrito em 2010-06-27

O regresso do amor



O amor não morreu!
Moribundo e frio,
arrasta-se na penumbra,
com o corpo em chagas
e a alma a sangrar.

Resistiu à tormenta
e à ira sinistra das vagas,
boiando nas águas gélidas,
como um naufrago solitário,
ao sabor de ventos e marés.

Agora, que o sol se levanta,
rompendo os ferrolhos da escuridão
e os exércitos do vento
libertam os corações cativos,
é tempo dele regressar,
porque se esconde dentro de nós
e não morreu ainda,
porque vem do eterno
e eterno é,
e será...


poema escrito em 1999-04-25

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Polaridade invertida


O olhar perdido na sombra do alpendre
bebe o pouco que resta, da luz estagnada
no estuque arruinado dos muros
e na terracota de longínquas memórias,
onde um eco de vozes sussurrantes
entoa a cantiga esquecida dos ventos.

Os pássaros sombrios do outono
desceram as colinas do teu corpo enrugado
onde o alento mirra, em cada folha que cai,
em cada novo dia que te desfolha,
na tristeza do musgo que trepa a pedra fria
nos últimos degraus do crepúsculo.

Vencida pelos limites vagos do futuro,
refugias-te nas varandas do passado,
e descobres que há um tempo na vida
em que a polaridade dos sonhos se inverte,
e a ilusão caduca dos dias vindouros
reverte àquelas manhãs antigas, em que
o sol dançava na linha morna do horizonte.



poema escrito em 2010-09-20

Quando o pó me reclamar



Quando a noite chegar
depois do alento esgotado
e meu corpo alquebrado
não mais puder caminhar,

imóvel, me estenderei
em torno de triste pranto,
e de negro me cobrirei
com meu melhor manto.

Quando meu olhar gasto
se entregar à escuridão
e minhas entranhas em ebulição
alimentarem o macabro repasto,
chegará a hora de escapar
embalado nas asas do vento,
sem nada levar,
tudo deixando ao esquecimento.


Quando todo o meu legado
se inflamar no braseiro da fornalha
e esconderem meu rosto estragado
no alvor rendado da mortalha,
esconsas asas abrirei
e para longe partirei,
doando meu ossário sombrio
a um qualquer terreno baldio.



poema escrito em 2007-05-07

domingo, 19 de setembro de 2010

Se a vida não tivesse dado tantas voltas



Não faço ideia o que poderíamos ser hoje
se fossem outros os caminhos percorridos;
se não tivéssemos vacilado ante os limites do mar
enterrados no lodo estagnado da vazante;
se tivéssemos rasgado os manuais do bom senso
e saltado sobre aquilo que se nos atravessou no caminho;
se tivéssemos traçado a chama de uma vela
quando subitamente todas as luzes se apagaram
e a escuridão nos devorou os passos;
se tivéssemos atravessado o caudal do rio
e tentado no desconhecido da outra margem
aquilo que não fizemos hoje e deixámos para outro dia.

Não sei o que realmente poderíamos ter sido
se a vida não tivesse dado tantas voltas.


poema escrito em 2010-09-10

Ascensão



Quando a morte se apodera dum corpo,
levando-lhe a carne e os ossos
para a escuridão profunda e esconsa
dos abismos da terra;
sua alma,
recuperando a liberdade de movimentos,
ergue-se acima da atmosfera viciada
deste imenso purgatório,
reúne os ensinamentos
colhidos nos trilhos acidentados
e sobe um degrau mais
na escadaria que, um dia,
a levará de volta ao coração do eterno.



poema escrito em 1992-02-23

sábado, 18 de setembro de 2010

Dia de todas as noites



Hoje é o dia em que te despedes
dos exíguos labirintos do destino
e dos gastos versos sem rima
de uma ilusão envelhecida.
Envolto no manto negro
que te cobre as chagas do corpo,
mergulhas num crepúsculo de cinzas
que lentamente devoram tua imagem
nos espelhos cegos do infinito.

O grito do silêncio ecoa ainda
na névoa da manhã estrangulada,
murmúrio de pedra fria
sobre a mordaça do mármore desvanecido,
onde ruidosamente desabam
frágeis alicerces de bruma
e os solitários sonhos que ergueste
no areal negro dos dias,
com o suor amargo de sangue espesso.

Lágrimas doentes te acompanham
à soleira adormecida do abismo,
ecos distantes de um adeus
plantado na frigidez dos ossos.
Hoje é o dia em que te despedes
do esplendor inacabado de uma quimera.



poema escrito em 2010-06-03

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Depuração



Muitas vezes já morri nesta vida.
Muitos corpos já enterrei, dentro de mim.
E sempre renasci, do próprio sangue,
das cinzas e dos véus das mortalhas,
num outro eu, a cada morte revigorado.



poema escrito em 2009-04-04

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sina




Carrego o corpo dormente daquilo que fui
na memória penosa de passos arrastados,
buscando na erosão prolongada dos dias
o fio débil do meu destino suspenso,
traçado a giz no compêndio dos astros.
Nenhuma certeza habita meus pensamentos.
Perdi-me algures, naquilo que nunca fui,
incapaz de ser aquilo que me penso
ou o que em delirantes sonhos concebo
na inércia pardacenta de velhos muros.

Uma vertigem de caminhos enredados
leva-me ao dédalo angustiante das noites
que me afastam dos portos da infância,
onde bebo o espólio das quimeras vencidas,
envolto no assombro do nada que me cerca.
O mistério insolúvel da minha identidade
não mo revela o oráculo divino dos ventos,
nem os lábios arrefecidos da esfinge se movem
se lhe pergunto porque me tremem os dedos
quando escrevo sobre o que não aconteceu ainda.

O que serei amanhã, que hoje não sou?
O que deixarei nas margens do incerto
quando o entardecer bater com a porta
levando a luz subtraída ao pó das manhãs?
Trará o futuro algum sonho por reclamar,
ou apenas me aguarda o clamor da alma
ruindo no marasmo da ultima escuridão?
Todas as dúvidas me condenam ao vazio
e ao caminho ermo, que não me devolve
o sentido perdido, lá longe, no dia em que cresci.

Onde me retornará minha sina difusa
quando se esgotarem todos os caminhos
destas linhas cruzadas do destino
no suor enrugado da palma das mãos?


poema escrito em 2010-09-16
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