quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Último alento de um poeta moribundo


Imagino como será o derradeiro acto
da vida de um poeta caído em desgraça,
definhando num covil de trevas e abandono.
Alguém que, como eu, nunca foi capaz
de ultrapassar as barreiras do anonimato
e que sente o tempo fugir-lhe, irremediavelmente.
Consumido pelo peso de uma velhice precoce
ou pelo veneno de uma doença terminal,
vejo-o, num quarto acanhado e escuro,
uma alcova barata de pensão decadente,
a braços com o último alento de um corpo
cuja chama agoniza à sombra da glória.

Mergulhado nas convulsões de um alucinado torpor,
amaldiçoa o tempo inútil que foi gasto
à sombra de um caderno velho e rabiscado,
como um desterrado eremita do silêncio
nas obscuras profundezas de uma capela,
longe das multidões e do clamor prostituído da vida,
em busca de uma qualquer palavra escondida;
um verso novo que brilhasse no escuro,
uma estrofe que soasse a eternidade,
um poema que o projectasse definitivamente
para lá das paredes húmidas do quarto esconso.

Nada disso lhe interessa, agora que
uma agrafia obscura lhe tolhe as sílabas
e o tempo se esgota na ampulheta corrompida.
Nenhuma palavra poderá já redimir
todas as que lhe faltaram no tempo certo,
todas as oportunidades que deixou escapar,
todas as acções que nunca realizou;
por falta de coragem e determinação,
por falta de um rasgo de inspiração,
ou, simplesmente, por falta de arte.

Seu derradeiro combate é travado agora
muito para lá das margens gastas do papel,
num horizonte pantanoso e febril
onde se afunda toda a glória rejeitada.
Uma vertigem de sílabas dispersas e sem cadência.
Uma grotesca e perversa metáfora
que não cabe já no silêncio das suas palavras
nem rima com um sonho que loucamente teceu.

Derradeiro verso de um obscuro poema
Que jamais será revisto.





poema escrito em 2010-08-10
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2 comentários:

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá, Runa.

Que magnífico este poema!
Li e reli... depois ouvi a sua declamação e adorei! Vc passou muito bem essa emoção do poema, a música tb ficou perfeita... senti até uma ligeira aflição... rs

Muito bom!
Parabéns!

Beijos

rosa-branca disse...

Olá poeta, fiquei extasiada com tão belo poema. Quem sente e escreve assim, sofre de nostalgia na cedência do seu tempo. Jamais ficará com a alma vazia. Beijos com carinho

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