terça-feira, 23 de novembro de 2010

Segunda-feira


Lavo a cara com o primeiro café da manhã
que derrete a remela no fundo cego dos meus olhos
e me ajuda a suportar o choque oblíquo dos raios solares
que se riem, por detrás da colina, do meu rosto desbotado.
Acendo uma nuvem de fumo denso e sufocante
que me guia na orla convulsa da rebentação
e caminho encostado à cal efervescente dos muros,
com a mágoa de quem vai recomeçar tudo de novo
e uma vontade moribunda, presa por gastos arames.

Sirenes de chumbo rasgam o orvalho preguiçoso
e vêm pousar as garras nos meus ombros curvados
que arrastam o passo nas alamedas da madrugada
por entre o rumor azedo de roldanas cariadas
e o grito estéril do cristal vacilante das manhãs.

Acendendo o rastilho das horas que me vão devorar,
alumiadas pelo pasmo renitente das gambiarras do vento,
escondo o corpo nas prateleiras enferrujadas do armário
junto com a roupa que penduro em cabides de plástico,
e é já só minha sombra quem trespassa o vítreo portal
mergulhando a pique nas ravinas viciadas da semana.




poema escrito em 2010-08-19
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5 comentários:

Cris de Souza disse...

cronos é implacável, não tem pena dos mortais.
espaço apuradíssimo, voltarei com prazer.

(agradeço sua generosa visita)

Eduarda disse...

Runa,

....acendendo o rastilho nas horas que me vão devorar.

perante isto que mais dizer?.

bj

Maria João disse...

Na "orla convulsa da rebentação" , protegemo-nos agarrados às conchas e, de mãos submersas no movimento lento das areias, esperamos o encantamento próprio dos dias diferentes.

Lindíssimimo Runa... e profundamente inspirador!

Um beijinho

Marinha disse...

"...já só minha sombra quem trespassa o vítreo portal
mergulhando a pique nas ravinas viciadas da semana". Forte! Intenso!

Alberto Moreira Ferreira disse...

há força aqui...

acenda-se o rastilho com a tua bela poesia

abraço

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