domingo, 5 de dezembro de 2010

Domingo de manhã



Debruçadas sobre o equilíbrio ferrugento dos estendais,
envoltas ainda no turco quente e fofo dos pijamas,
as mulheres estendem a pele lavada
que os maridos despiram, sexta feira ao fim do dia,
fingindo que está um lindo dia para enxugar a roupa
e as feridas que teimam em sangrar.

Levando pela trela cãezinhos amestrados,
com o ventre inchado de fezes e urina
e um apetite alucinado por relva tenra e húmida,
os homens, em coloridos fatos de treino,
descem ao verde agoniado dos jardins.
Acendendo um cigarro, inspiram profundamente,
enchendo os pulmões com a insónia da manhã
e fingindo acreditar ainda, numa patética
e esbatida ilusão de liberdade.

É domingo de manhã.
O sol espreita timidamente
por detrás de carrancudas nuvens
que nada sabem do ritmo dos dias
e ameaçam a fragilidade parda do horizonte
com seus punhais de chuva e solidão.
Lentamente, esmago a ponta de cigarro
no espanto encardido do cinzeiro,
bato com o vidro duplo da janela
e regresso ao silêncio adiado do quarto,
desligando-me de novo do mundo
e das arrefecidas divagações matinais,
fingindo, também,
que, hoje, alguma coisa irá mudar.


poema escrito em 2010-11-30
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4 comentários:

Cris de Souza disse...

esse cenário é devastador...

por dentro algo surta!

beijo, meu caro.

Marinha disse...

Que imagem mais cinza e vazia de esperança! Gelei ao ler-te!
Bjo

Eduarda disse...

Runa,

quem ficou assim como um vidro mal lavado fui eu.

um dia, uma manhá numa realidade tão cruel, tão verdadeira.

ler-te é aquele privilégio.

bj

Colecionadora de Silêncios disse...

Runa, poeta querido, vc escreve de forma implacável!

Eu adoro esse seu jeito de pôr em palavras, sentimentos tão perturbadores... arrepio ao ler-te!

Beijos

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