quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A idade das pedras


Quando eu tiver a idade destas pedras
que o mar acaricia com língua salgada
e o meu futuro forem apenas memórias
esvoaçando nas quilhas do esquecimento
não mais serei refém desta melancolia
que o vento desenha no areal do entardecer.

Quando eu for da idade destas pedras
lambidas pelo embalo da ondulação
e meu nome tiver sido apagado da areia
pela espuma branca de muitas marés
sentar-me-ei aqui neste velho pontão
como uma embarcação ancorada ao sol
na eterna transparência de um voo suspenso
a decifrar o segredo azul dos oceanos.

_________________________________________

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Cinco décadas


Um rosto com cinco décadas
enfrenta-me do outro lado do espelho
jurando que é o meu reflexo.
Deteto-lhe um sorriso vago
que me faz lembrar por instantes
qualquer coisa da infância
mas não me reconheço nesta miragem
baça transparência de um corpo
esmagado pelo crescimento dos ossos.

Olho-me uma vez mais
como quem contempla uma foto gasta
e o espelho não me mostra quem fui
mas apenas um vago reflexo
um afastamento abstrato e envelhecido
que o estio foi cristalizando;
aquilo que agora sou:
um rosto com cinco décadas de profundidade.

______________________________________

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Estrelas cintilantes


A pedra é um fogo que arrefeceu
quando o céu derramou as primeiras águas
saciando a sede profunda do mundo

A flor é uma pedra carregada de pétalas
que estende suas raízes perfumadas
abraçando a claridade das manhãs

A borboleta é uma flor que ganhou asas
e se solta das amarras da terra
seguindo as pegadas livres do vento

O amor é uma borboleta colorida
que voa para lá de qualquer horizonte
ao encontro de um sonho maior

Um dia todos seremos estrelas cintilantes

______________________________________________

domingo, 2 de junho de 2013

Peregrinação


Nenhuma distância os impede de chegar.
Vêm com o vento e com as chuvas breves
que amansam a aridez dos caminhos
à espera de encontrar um outro norte
uma fenda no coração negro da rocha
ou um caminho de retorno a casa.
Vêm do fundo nebuloso das quimeras
e dos lugares eternos do medo
com as mãos cruzadas sobre o peito
e um assobio de fogo à cintura
para iluminar por dentro a escuridão.
Trazem nos cabelos um perfume antigo
como um pacto firmado ao redor das fogueiras
e rubros lanhos na exaustão dos pés
para esconjurar a febre da lonjura
e se resguardarem da memória do choro.
Trazem um desejo de aves migratórias
a abraçar as manhãs que nunca viram
num voo solitário sobre as dunas
ensaiando a redenção de esconsas feridas.

Quando chegam, com o rosto estragado pelo frio
e o coração a fervilhar de sobressaltos
lentamente entregam o corpo à sede das areias
e à sombra das pedras que se erguem para o alto
respondendo a um apelo que vem de cima.

________________________________________

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dentro do poema


sento-me aqui
à sombra desta miragem
a acariciar as letras do teu nome
a revolver as palavras
que a insónia me sussurra
enquanto a tua imagem desliza
abrindo vagarosos trilhos
por entre o marulhar das águas
na dormência da memória

é apenas um solitário jogo
que a imaginação tece
um segredo de tinta coada
a expurgar da brancura da folha
a inércia da tua ausência
a rasurada esperança
de que um simples verso te anuncie
ou traga de novo
a luz que o verão esgotou

gestos que vou ensaiando
com o aparo persistente da lapiseira
até sucumbir à febre do desejo
e sílaba a sílaba
reconstruir o néctar do teu rosto
até que o papel se incendeie
aveludado e liso
como um espelho iluminado
e só o reflexo do amor caiba
dentro do poema


__________________________________________

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Equilíbrio


Um homem segue seu caminho
temendo não vislumbrar um fim.
Sabe que, a qualquer altura
sob os pés que resvalam
um alçapão se irá abrir.

Um homem caminha
como quem se afoga.
Em queda livre.
Sempre a descer.
Não existe terra firme
neste néon vago e profundo.

Como se as águas
se tivessem retirado com a maré
e deixassem a descoberto
uma cidade enterrada no lodo.

É difícil manter o equilíbrio.


____________________________________

sábado, 20 de abril de 2013

Fim da viagem


Aproximas-te agora
do fim da viagem.
Pelo estremecer do carril
e da poeira que se levanta
cercando a paisagem
adivinha-se já
a luz baça da última gare.
Há um rumor de cinza
no freio que chia
anunciando o limiar do frio
e uma sombra cinzenta
que acena com o vento
lembrando os gestos definitivos
de uma despedida.

Na parca bagagem
trazes aquilo que te sobrou
dos sonhos que envelheceram
à espera que a noite se esgotasse:
algumas lembranças
marcadas a fogo
na carne enrugada da memória,
uma fatia de sol
trazida da longínqua infância
que ainda não se perdeu de todo,
e um sorriso traído
no olhar exausto
de tanto atravessar
a escuridão dos túneis.

Contemplas agora
o lugar vazio
de um súbito regresso
ao ponto de partida,
a derradeira imobilidade
que te vem resgatar
à fragilidade exausta
de um voo encalhado.
Sozinho no apeadeiro
a ver a noite partir
e a manhã que chega
branca e cintilante
a colorir-te os contornos do rosto,
até à transparência da luz

enquanto lentamente
te debruças
sobre as malas por desfazer.

___________________________________________

sábado, 13 de abril de 2013

Um milhão de vozes


Se uma voz se levantar de um fundo de névoa
sacudida pelo frémito impaciente da insónia
não será ainda um grito, mas tão só um lamento
uma fala virada para dentro de uma aragem estéril
qualquer coisa que se desmorona precocemente
sem nunca deixar de ser apenas um esboço

Se cem vozes se elevarem acima desta angústia
amadurecidas pela persistência cega do medo
não será ainda o princípio de uma metamorfose
nem o movimento de portas a bater na escuridão
mas somente a mágoa com que os lábios se fecham
num murmúrio que a noite rapidamente devora

Se mil vozes se erguerem numa abstração branca
como um aviso a irradiar a embriaguez algemada
ou o som de alguma coisa que lentamente começa
fizer estremecer a sombra transitória dos alicerces
ninguém poderá já suster o rumor que se expande
liberto da retórica que o silêncio esculpiu na pedra

Se um milhão de vozes se exaltar ao rés do poço
sacudindo o relento enroscado no frio dos ossos
e os ecos que o furor desse sopro irão prolongar
subitamente rasgar uma fenda no círculo fechado
de nada valerá às muralhas que então desabam
apertar mais e mais o abraço inquinado do cerco

_____________________________________________

sexta-feira, 29 de março de 2013

O estertor das rosas


As rosas bebem as últimas águas
encurraladas no fundo da jarra
com as raízes atrofiadas
pelo abraço estéril da porcelana.
Inclinaram o tronco para a frente
numa respiração baça e amputada
numa agonizante vertigem
de que são incapazes de se libertar
enquanto lentamente se despojam
do peso murcho das pétalas
e de uma réstia nostálgica de perfume
que os pássaros já não vêm sondar.


___________________________________

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Estátua de areia


Gostava de envelhecer sem sobressaltos
num recanto iluminado pelas carícias da alvorada
a desenhar no branco dos dias por escrever
o silêncio dos versos guardadas no peito

Gostava de envelhecer sob o rumor das mantas
acariciando as cores esbatidas da infância
sem o som de cascos a rasgar na poalha dos ossos
a amnésia cega e irreversível do poente

Gostava de envelhecer como quem chega de viagem
e se deixa embalar pelo requiem da memória
tecendo as palavras que me servirão de legado
até que uma sonolência lenta e profunda
se erga da fragilidade de um poema interrompido
e me arraste pela eterna cegueira do crepúsculo

transformado numa serena estátua de areia

_____________________________________________
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...