quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Alfabetos de fumo


O poeta não é a estrela da manhã
espargindo luz sobre o mundo
nem o mensageiro branco
que cruza os caminhos do pó e da insónia
carregando a boa nova.
Não é o messias apregoado
que navega desertos de perdição
com o facho aceso de todos os milagres
para exorcizar as dores do mundo.
O poeta não veio para salvar ninguém.
É feito do barro que coseu em lume brando
no suor ofegante das fornalhas
onde se molda a litania dos ossos
que rangem por dentro da noite
e do cristal de errantes sonhos
a desenhar na cal baça dos muros
a rima imperfeita de todos os destinos.
O poeta traz no soluço exaltado
a revolta de uma cegueira de sílabas
a abraçar chicotes de ventania
e um tambor de tinta a martelar metáforas
e a dar forma de lágrima
ao sal resignado das palavras
que lhe rebentam entre a espuma das mãos
na luz mortiça dos candeeiros de quarto
onde todas as sombras se congregam
desenhando o sobressalto dos sentidos
acantonados num enredo de raízes.
O poeta busca na métrica sinuosa do silêncio
as palavras que não nasceram ainda,
a alquimia secreta e efémera do verbo
a exorcizar uma agonia de asas trémulas.
Num minucioso ofício de redenção
mergulha na luz oculta dos labirintos
carregando sobre os ombros vergados
um remoinho de existências vencidas
e a caligrafia de uma febre sobressaltada
embutida na miragem fugaz do poema.
O poeta não se deslumbra com as jóias falsas
de uma quimera fabricada no plástico dos moldes
nem com o excesso de luz que desagua
na errância dos caminhos que vestem
o júbilo amordaçado de lúgubres claustros.
Sobre o fundo negro das tormentas
liberta da solidão ofegante das ardósias
a luz dos gritos incontidos
e tudo aquilo que espera para ser dito
no traço hesitante do giz
que sulca o nervo inquieto do verso
cerzindo com o cinzel encrespado dos dedos
a canção dolente das cinzas
nos proscritos alfabetos do fumo.
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sábado, 3 de dezembro de 2011

Diário económico

A bolsa abriu hoje
com nova sessão no vermelho.
Em queda acentuada
os principais índices
voltaram a bater recordes
em contra ciclo
com o colapso dos contribuintes.
Especialistas anunciaram
o estudo de uma vacina
para combater
o nervosismo crónico dos mercados
e a ameaça de contágio
aos restantes pacientes.

Com o objetivo de debelar
o bacilo galopante da falência
governos congelam salários
e aumentam impostos;
fixam a idade da reforma
nos noventa e nove anos
processando todos aqueles
que não cumprirem essa meta.
Como consequência da medida
a Moody’s já anunciou
um novo corte
no rating das agências funerárias
alertando para a instabilidade
no setor da necrologia.

O banco central prepara
uma injeção de capital
para retoma económica
da europa moribunda
incentivando os países
a contrair novos empréstimos
para pagar dívidas e taxas
de juros já vencidos.
Especuladores manifestam-se
contra pacotes de resgate
e quaisquer tentativas
de contenção de gastos
enquanto os credores uivam
às portas da mansão em ruínas

e Atenas
é consumida pela fúria das chamas.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Azul profundo


Havia um barco que não conhecia o mar
nem o embalo ondulante das vagas.
Nada sabia do mistério das águas
nem das cores que banham os horizontes.
O seu lugar era na imobilidade das margens
preso à madeira ressequida do cais
e ao resignado abraço da vazante.
Nenhum vento lhe soprava as velas.
Nenhum farol acendia o sol dos caminhos.
Nada o libertava do peso das amarras
e do lodo que o imobilizava.
Vivia ancorado ao gelo das dunas
no vazio petrificado do meu peito
num exílio de falésias cercadas
sonhando com as marés inacessíveis.

Até que o amor chegou, pela manhã,
com um temporal de novas sensações
soprando uma rebentação de espuma
na palidez insone do areal,
e o barco ganhou inesperadas asas
rasgando os véus da inércia
e se perdeu na vertigem da distância
traçando os rumos secretos do voo
entre o verde do sonho sem limites
e o azul profundo do teu corpo iluminado.

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Recomeço


Quando chegar ao centro perdido do labirinto
depois de desembrulhar todos os mistérios
e me sentar na pedra de musgo da eternidade
a contemplar os espelhos do vazio que me resta,
quem acenderá de novo a luz matinal do choro
que me permita voltar ao inicio do caminho?


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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

No orgasmo do último verso



Podemos amar um poema
como quem ama um corpo de mulher
na ânsia febril de um desejo

Beijar as sílabas sensuais
de uma estrofe húmida e macia
num degelo de lábios ardentes

Percorrer os poros palpitantes
de uma fogosa metáfora
como quem se perde nos labirintos
de uma paixão infinita

E o mais alto prazer atingir
no orgasmo do último verso

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sábado, 5 de novembro de 2011

Vertigem anónima



Sigo o rumor cego dos dias curtos
que se esfarelam nos dedos enrugados
de um demónio que habita um saguão de sombras,
por detrás da porta onde pulsa o cabide
em que penduro, ao fim do dia, o rosto que não rima.

Às voltas ainda com a inércia das palavras,
tropeço na abstrata caligrafia da névoa
e na paisagem abandonada dos meus passos,
quando o vento se levanta, sonâmbulo,
nos patamares gastos dos parágrafos cinzentos
e um coro de vogais soletra na encruzilhada
a derradeira luz do dia.

Nenhuma palavra me diz quem sou,
nenhum verso sabe o que faço aqui,
nesta folha suja onde nada escrevi;
tinta seca que o vento corrói
no empedrado dos fonemas onde me perco.

Persigo uma estrofe de incertezas
através da maré de pontos de interrogação
e me afundo num labirinto de sílabas,
sem atinar com o caminho
que me leve ao final do poema
ou me faça regressar à luz do primeiro verso.


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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Austeridade *


do fundo enxuto do poço
o balde arranca um punhado de sangue
que irá alimentar a prole faminta
de uma nova ninhada de demónios


* Como estamos em crise há que poupar nas palavras...


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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Angústia para o jantar



O rumor do vento a atravessar os véus do crepúsculo
faz-me lembrar por momentos teu assobio antigo
quando me chamavas, ao longe, para ir jantar
e eu tinha de abandonar a brincadeira e correr para casa
por temer que te zangasses com a minha demora.
Abro os olhos, atento ao movimento subtil das sombras,
na ilusória esperança de descortinar tua silhueta,
teu braço erguido a acenar à entrada do pátio
como quem chega de um lugar distante e esquecido.
Mas essa entrada já não existe, e tu também não.

Há muito que deixei de ser o menino que brincava na rua
e que em ti encontrava a segurança de um agitado esvoaçar.
Inquieta-me agora a ideia de não saber por onde andas,
em que esconsos caminhos te perdeste, dentro da noite,
e também eu me sinto perdido, sufocado pela tua ausência,
que recordação alguma poderá preencher. São horas de jantar
e não tenho apetite nem vontade de voltar a casa.
Se soubesse assobiar como tu o fazias, chamar-te-ia
para que viesses correndo e não te atrasasses,
mas não consigo mais do que um sopro rouco e apagado
que de certeza nunca serás capaz de escutar,
ou talvez escutes e nem sequer possas responder;
não possas largar tudo aquilo que tens para fazer
para regressar esta noite, e sentares-te comigo à mesa.

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sábado, 8 de outubro de 2011

Câncer



Está um bicho escondido no centro da encruzilhada.
Uma maré negra que te invade a brancura da alma,
onde a luz doente da tarde sucumbe, crucificada.
Armadilha de cinzas que lentamente se enrosca
nos alicerces decrépitos da tua juventude cercada
e na amarga solidão dos ossos que se desfazem
lambidos pela cegueira que te amaldiçoa as entranhas.

Está um bicho escondido no mais profundo de ti.
Um pássaro de lava debicando pétalas murchas
nos minaretes vergados do teu corpo corrompido.
Vagarosa peregrinação de fantasmas e demónios
que te arrasta pelos desolados mapas do poente
onde num silêncio de horizontes retalhados te afundas
engordando a ânsia faminta de um espasmo demorado.

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sábado, 1 de outubro de 2011

Dança do fogo


Ergo o cálice de sol e bebo a luz que transborda do peito
derretendo a ilha de gelo que o frio teceu nos teus lábios.
Pedra a pedra desvendo a trilha oculta nos teus ombros
cumprindo o ritual de sangue que teus deuses reclamam.
Desço a escadaria que me leva aos teus seios macios
onde a persistência do vento ergueu imponentes dunas
deixando em cada degrau o eco de mil gemidos.
Dou as mãos à fúria dos presságios que te sacodem
com as unhas feridas de acariciar falsas rosas
tateando com o frémito ofegante dos meus dedos
os caminhos proibidos que me levam ao templo escondido.
Mordo-te o ventre incendiado com dentes que roubei a um cego
cavando minha perdição no abismo que te cerca as entranhas.

É hoje que me deixo imolar nas labaredas do teu abraço
para amanhã renascer com asas de homem novo.


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