sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Angústia para o jantar



O rumor do vento a atravessar os véus do crepúsculo
faz-me lembrar por momentos teu assobio antigo
quando me chamavas, ao longe, para ir jantar
e eu tinha de abandonar a brincadeira e correr para casa
por temer que te zangasses com a minha demora.
Abro os olhos, atento ao movimento subtil das sombras,
na ilusória esperança de descortinar tua silhueta,
teu braço erguido a acenar à entrada do pátio
como quem chega de um lugar distante e esquecido.
Mas essa entrada já não existe, e tu também não.

Há muito que deixei de ser o menino que brincava na rua
e que em ti encontrava a segurança de um agitado esvoaçar.
Inquieta-me agora a ideia de não saber por onde andas,
em que esconsos caminhos te perdeste, dentro da noite,
e também eu me sinto perdido, sufocado pela tua ausência,
que recordação alguma poderá preencher. São horas de jantar
e não tenho apetite nem vontade de voltar a casa.
Se soubesse assobiar como tu o fazias, chamar-te-ia
para que viesses correndo e não te atrasasses,
mas não consigo mais do que um sopro rouco e apagado
que de certeza nunca serás capaz de escutar,
ou talvez escutes e nem sequer possas responder;
não possas largar tudo aquilo que tens para fazer
para regressar esta noite, e sentares-te comigo à mesa.

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15 comentários:

OutrosEncantos disse...

acredita Runa, esse sopro rouco passa-lhe no ouvido como brisa doce e que faz doer, por saber que não pode mais te assobiar, nem sentar-se contigo à mesa.
que poema maravilhoso.
abraço meu.

Elis disse...

Runa, na noite de ontem era eu quem escrevia sobre as ausências que esta vida nos impõe. Hoje, ao ler tuas palavras, sinto lágrimas teimosas nos olhos... É sempre tão bom ler o que você escreve, sejam quais forem os temas! Ficam um abraço amigo e um beijo no teu coração!

Reinadi Sampaio disse...

'Se soubesse assobiar como tu o fazias, chamar-te-ia para que viesses correndo e não te atrasasses,'

Que dizer?
Consegues com a mesma facilidade que pões a falar alguém, deixar este mesmo alguém sem palavras.

Um grande abraço.
Flor.

Maria Emilia Moreira disse...

Belo texto! Há factos e pessoas que nos marcam para toda a vida. E como lembramos com perfeita nitidez todos os detalhes!!!
Bom final de semana.

Rô... disse...

oi Runa,

nada mais dolorido
que aquele lugar vazio na mesa,
existem pessoas que são inesquecíveis,
seria bom se pudéssemos desfrutar de sua presença a vida toda,
é muito difícil aceitar determinadas perdas...

beijinhos

Vera Lúcia disse...

Olá Runa,
Difícil conviver com a ausência de entes queridos.
Algumas lembranças não se apagam, o que de certa forma tem seu lado positivo, pois nos trazem momentos que nos fizeram felizes.
Muito triste, mas um belo texto poético.
Grande abraço.
PS:Fiquei feliz com sua visita.

marlene edir severino disse...

E nada mais nos resta a não ser aceitar.

E bem disse Drummond, " A ausência é um estar em mim... porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."

Belo!

Abraço daqui!

CF disse...

Há sempre alguém que faz-nos falta à mesa...na casa...na vida! O que nos vale é ter um coração grande capaz de albergar quem nos apetecer (ou não! :(
Abraço
BFDS

Anna Amorim disse...

Runa,

Minha mãe faleceu há mais de 10 anos e ainda sou assaltada por esta ausência. Sei q será assim até eu estar ausente de mim.

Belo post e escolha da imagem!

Forte abraço,

Anna Amorim

Flor de Jasmim disse...

Runa
As tuas palavras mexeram demais comigo, pois chorei muitas lágrimas ao ver um lugar vazio à mesa e que foi ocupado durante 23 anos pelo meu falecido marido.
Beijo e uma flor

Luciana Mira disse...

Belo texto! Parabens!

mfc disse...

Um poema lindo de uma angústia por uns tempos que não voltam mais!

Luciana Mira disse...

Que Deus cuide do coração .. Belo texto.

BlueShell disse...

Oi...andava inquieta, sabes? Tinha-te perdido...agora achei-te.
Sabes? li com muita atenção...e senti cada palavra, cada vírgula...como se fosem minhas as palavras.
Meu pai nos deixou há 7 anos...e com ele levou parte de mim...
Mas deixou também um legado precioso: os gestos, a sabedoria...o amor...que fazem de mim a mulher que sou; a ti, o teu legado...faz de ti o homem que és....

O meu marido tem cancro.
Em Julho de 2010..soubémos que tinha...

Eu ...te abraço.

Vera Celms disse...

Os sinais, os códigos, os signos que usamos, tantas vezes de forma impensada, permanecem para sempre na nossa memoria...
..."e não tenho apetite nem vontade de voltar a casa.
Se soubesse assobiar como tu o fazias"...
A susencia, leva consigo a vontade de reviver momentos similiares, onde a saudade também comparece...
Adorei... fez-me tocar as ausências que moram em mim... beijos RUNA... de VC

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Abraço. Volta sempre.

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