terça-feira, 7 de junho de 2011

Restolho


Acordo como se nuca tivesse sido noite,
na manhã que esconde todas as sombras,
gritando teu nome pelos corredores vazios
com a voz que resgato ao pó das gavetas.
Pergunto por ti às horas que passam
fingindo não saber que é demasiado tarde
e abro as janelas ao coração inquieto
buscando teu rosto num solstício que não chega.
Com sílabas antigas refaço os mesmos versos
onde te tentei prender, na teia branca do poema,
e lentamente morro de novo na luz puída
que enreda o contorno sombrio da folha.
Erro por entre as dunas estéreis da estrofe
nos lugares perdidos onde nunca estás
invocando as palavras que ficaram por dizer
e que se desfazem na combustão dos parágrafos.
Sacrifico todos os sonhos que não sonhei
às musas de um futuro que não existe
tentando ressuscitar à memória das cinzas
as manhãs que me sussurraste no peito,
mas, aquilo que sobra do poema,
no restolho das minhas mãos vazias,
é apenas e só
a metáfora fria da tua prolongada ausência.

____________________________________________________
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20 comentários:

flor de jasmim disse...

Runa
Triste teu poema, mas com sua beleza muito própria. Desculpa meu amigo os meus comentários tornam-se muito repetitivos, mas é dificil comentar um poema, porque gosta-se ou não, mas que gosto imenso de te ler gosto.
Beijo

blog da Paraguassu disse...

Olá Runa,
Gostei de seu poema, embora traga a nítida impressão de uma tristeza encolhida dentro de si mesma. Dependendo da ocasião, de como está nosso interior, não podemos rir, quando temos vontade de chorar.
Um grande beijo, querida.
Maria Paraguassu.

MARILENE disse...

Você chora uma ausência com lindos versos. Para o poeta, o contorno de tristezas e alegrias contém o belo.

Bjs.

Vera Lúcia Duarte disse...

Amei, Runa.
Que lindo poema! Como a dor e o vazio deixados por um amor ausente pode gerar versos tão apaixonados!
Grande abraço.

Reinadi Sampaio disse...

Dizer que é belo é muito pouco... defini-lo!? Creio, faltar-me-ia as palavras, portanto, imposível dizer algo à respeito dos teus escritos. Apenas aplaudi-los!

FlorAlpina disse...

Olá Runa,
Não me acuse de plágio, mas copio na integra o comentário do Reinadi!
Porque dizer simplesmente que é belo muito pouco!

Bjs dos Alpes

mfc disse...

Existe futuro, sim!
amanhã é um outro dia... e lindo!
Vais ver...

CF disse...

Runa
afinal ainda não tinha visto este...
Quem mantém aceso um nome
quem pergunta ao tempo
mesmo que em lugares perdidos...jamais apagou a chama dessa ausência...fica sempre um silêncio ruidoso no ar que ao menor estalido entoa tudo de novo...mas já nada parece ser igual! Tudo havia terminado ou nunca havia, sequer começado! quiçá???!!!
Sempre bem, os seus escritos amigo
Precisa apenas de um pouco de luz nas palavras...:)
Abraço

M. disse...

Esta ausência não a receio. E até a desejo.
Não agora. Não já. Se calhar nunca. Ou então que seja tarde. Mas gosto de pensar que teria direito a ela:)

C. disse...

Fui lendo e lembrando da ausência da minha mae já em outro plano... inevitável nao molhar os olhos...

beijos

TERESA SANTOS disse...

Ausência?

Afinal o que é ausência? A falta do outro? O vazio?

Ausência na presença não será mais doloroso?

Ausências que se preenchem, ausências com o seu retorno podem representar um bálsamo.

Ausências de mãos cheias, são tão dolorosas, mas tão dolorosas!

Essas, sim, constituem verdadeiros vazios.

Tenho pensado no nome que deste ao blog.

Seguir o escoar do tempo não causa uma certa mágoa?
Seguir enquanto espectador, ou seguir enquanto fazendo parte de...?
Prefiro ser um átomo da amálgama que é o todo!

Ana Ferreira disse...

Entras no meu desafio?? :)

http://desafiote-desafiarme.blogspot.com/

Sandra disse...

Runa
Cada vez gosto mais de te ler. Escreves com a alma e isso sente-se. Tanto.
Adorei o texto e não consegui diassociá-lo de uma das minhas canções preferidas da Mafalda Veiga .

Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário.
Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade.
Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração



Beijo grande

Long Haired Lady disse...

ausência, falta, tudo termina em saudade!

Memória de Elefante disse...

O eco de um nome onde não existe noite...

Belo e intenso!


Um beijo

Evanir disse...

Boa Noite..
Estou conhecendo eu blog hoje fiquei maravilhada com suas postagens muito linda a imagem do seu blog.
Tomei a liberdade de entrar seguindo seu blog convido a conhecer o meu e seguir caso você gostar.Um carinhoso beijo,Evanir.

Rart og Grotesk disse...

"Sacrifico todos os sonhos que não sonhei
às musas de um futuro que não existe", que parte intensa!!

adorei o poema!

bjs

http://artegrotesca.blogspot.com

mizia disse...

Runa,
Seu poema tão profundo ... adorei !!!!!

Beijinho
mizia

Rosi Alves... disse...

Lindo de viver não saio mais daqui vou te seguir se puder me visitar gotas de poesia Rosi Alves.profundo esse poema.linda noite e uma semana de muita paz!

Reinadi Sampaio disse...

Dizes que nunca posto meus poemas, então aqui vai um poema meu para os teus versos:

“tentando ressuscitar à memória das cinzas”

Memórias

Memórias são imagens vivas dentro de nós,
Que nos provocam as mais diversas reações,
Aconchegam-nos,
Acolhem-nos,
Abraçam-nos,
Fazem-nos por tudo para cima
Ou nos arrebentam até o mais profundo do íntimo!
Traumatizam-nos e dilaceram no interior,
Aquilo que pensamos nem existir em nós
E nos enche a cabeça de perguntas sem resposta,
De respostas incoerentes,
De pensamentos desfocados da realidade,
Mas que para nós,
São visões tão cristalinas,
Como o mais puro diamante
Forjado na dureza do íntimo
Na fornalha das emoções...
Comprimido na pressão de um grito surdo,
Que só ecoa na nossa cabeça
E vibra dentro de nós,
Como uma onda de choque...
Devastadora...
E, no entanto:
Nada conheço de mais aconchegador,
Mais dentro...
Mais íntimo...
Mais eu...

Reinadi Sampaio (eu flor-caminho só)
Cruz das Almas/Bahia/Brasil
Do livro ‘Água Nua’.

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