quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A cor desfigurada das manhãs


A cor desfigurada das manhãs
assume tonalidades de um plástico baço
sacudido pelas engrenagens do frio
e todos perguntam pela luz do sol
sabendo que é só uma memória esbatida,
uma missanga que se esconde no horizonte
corrompida pelo fascínio da sombra

Um presságio atravessa a esteira gasta
onde as mulheres ergueram rezas e feitiços
invocando um alívio que nunca chegou
e todos perguntam pelo fim da noite
sabendo que nenhum deus os escuta
e os céus permanecem acorrentados
à caligem de uma paisagem alcatroada

Banidos de uma sina anunciada pelos profetas
os homens procuram no fundo dos poços
um reflexo que os liberte do abraço do breu
e todos os dias aos oráculos perguntam
com os olhos vidrados pelo desamparo
quem foi que derramou no azul da tela
a cor desfigurada das manhãs

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sábado, 28 de setembro de 2013

Últimos sinais


Talvez uma réstia de perfume antigo
perdure ainda na orla do teu vestido
quando sacodes os cabelos molhados
e te libertas da persistência da chuva.
Talvez o tempo não tenha apagado tudo
e nalgum lugar repouse ainda a inocência
que um dia atravessou a claridade dos dias.
Talvez a memória breve daquilo que fomos
ainda se abrigue num rumor de ventania
ou no frio amadurecido dos teus lábios
quando lentamente fechas os olhos
e escutas, no mais profundo de ti
os últimos sinais da minha respiração.

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sábado, 31 de agosto de 2013

Depois dos cinquenta


Depois dos cinquenta
o caminho torna-se mais inclinado.
A descida acentua-se
numa descontrolada vertigem
que invariavelmente termina
do outro lado do rio
num desamparo
sem margens nem retorno.

Entretanto
regressam as vozes da sede
e o corpo se transforma num deserto
onde a febre e o pó
lentamente escavam na areia
a dormência de uma cegueira nova.
A anunciação do sono
que há de chegar.

A paisagem regurgita
para um cálice que o vento sorve
resquícios oxidados de sémen
e tudo o que se foi acumulando
à volta da pele enrugada
despojando-se daquilo que lhe foge
e já não nos pertence.
Nem nunca pertenceu.

Falta-nos ainda assistir
através das janelas embaciadas
à derrocada da claridade.
O recorte último da ruína
a preparar os trilhos da ausência
que o ocaso celebra já
sob o velho alpendre onde repousa
aquilo que nos prende ainda à vida:

A delapidada ilusão de querer ver
os filhos seguindo seus próprios atalhos
sem receio de se perderem
e ter ainda uma réstia de lucidez
e algum alento extra
para acompanhar os netinhos ao jardim.
Como uma derradeira prova a superar
antes do acerto final de contas.

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domingo, 25 de agosto de 2013

Um atalho para medir a ausência de Deus


Um balouço rangeu toda a noite
o queixume da madeira encharcada
como uma oração que o vento rumina
com os lábios gretados pela insónia.
Tolhidos pelo desamparo da sede
com que a chuva ameaça o futuro
sombras esguias sentam-se ao luar
à espera daquilo que nunca regressa.
Varando os trilhos da memória.
Buscando no fumo e no bojo do frio
um atalho para medir a ausência de Deus.

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A idade das pedras


Quando eu tiver a idade destas pedras
que o mar acaricia com língua salgada
e o meu futuro forem apenas memórias
esvoaçando nas quilhas do esquecimento
não mais serei refém desta melancolia
que o vento desenha no areal do entardecer.

Quando eu for da idade destas pedras
lambidas pelo embalo da ondulação
e meu nome tiver sido apagado da areia
pela espuma branca de muitas marés
sentar-me-ei aqui neste velho pontão
como uma embarcação ancorada ao sol
na eterna transparência de um voo suspenso
a decifrar o segredo azul dos oceanos.

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Cinco décadas


Um rosto com cinco décadas
enfrenta-me do outro lado do espelho
jurando que é o meu reflexo.
Deteto-lhe um sorriso vago
que me faz lembrar por instantes
qualquer coisa da infância
mas não me reconheço nesta miragem
baça transparência de um corpo
esmagado pelo crescimento dos ossos.

Olho-me uma vez mais
como quem contempla uma foto gasta
e o espelho não me mostra quem fui
mas apenas um vago reflexo
um afastamento abstrato e envelhecido
que o estio foi cristalizando;
aquilo que agora sou:
um rosto com cinco décadas de profundidade.

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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Estrelas cintilantes


A pedra é um fogo que arrefeceu
quando o céu derramou as primeiras águas
saciando a sede profunda do mundo

A flor é uma pedra carregada de pétalas
que estende suas raízes perfumadas
abraçando a claridade das manhãs

A borboleta é uma flor que ganhou asas
e se solta das amarras da terra
seguindo as pegadas livres do vento

O amor é uma borboleta colorida
que voa para lá de qualquer horizonte
ao encontro de um sonho maior

Um dia todos seremos estrelas cintilantes

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domingo, 2 de junho de 2013

Peregrinação


Nenhuma distância os impede de chegar.
Vêm com o vento e com as chuvas breves
que amansam a aridez dos caminhos
à espera de encontrar um outro norte
uma fenda no coração negro da rocha
ou um caminho de retorno a casa.
Vêm do fundo nebuloso das quimeras
e dos lugares eternos do medo
com as mãos cruzadas sobre o peito
e um assobio de fogo à cintura
para iluminar por dentro a escuridão.
Trazem nos cabelos um perfume antigo
como um pacto firmado ao redor das fogueiras
e rubros lanhos na exaustão dos pés
para esconjurar a febre da lonjura
e se resguardarem da memória do choro.
Trazem um desejo de aves migratórias
a abraçar as manhãs que nunca viram
num voo solitário sobre as dunas
ensaiando a redenção de esconsas feridas.

Quando chegam, com o rosto estragado pelo frio
e o coração a fervilhar de sobressaltos
lentamente entregam o corpo à sede das areias
e à sombra das pedras que se erguem para o alto
respondendo a um apelo que vem de cima.

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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dentro do poema


sento-me aqui
à sombra desta miragem
a acariciar as letras do teu nome
a revolver as palavras
que a insónia me sussurra
enquanto a tua imagem desliza
abrindo vagarosos trilhos
por entre o marulhar das águas
na dormência da memória

é apenas um solitário jogo
que a imaginação tece
um segredo de tinta coada
a expurgar da brancura da folha
a inércia da tua ausência
a rasurada esperança
de que um simples verso te anuncie
ou traga de novo
a luz que o verão esgotou

gestos que vou ensaiando
com o aparo persistente da lapiseira
até sucumbir à febre do desejo
e sílaba a sílaba
reconstruir o néctar do teu rosto
até que o papel se incendeie
aveludado e liso
como um espelho iluminado
e só o reflexo do amor caiba
dentro do poema


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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Equilíbrio


Um homem segue seu caminho
temendo não vislumbrar um fim.
Sabe que, a qualquer altura
sob os pés que resvalam
um alçapão se irá abrir.

Um homem caminha
como quem se afoga.
Em queda livre.
Sempre a descer.
Não existe terra firme
neste néon vago e profundo.

Como se as águas
se tivessem retirado com a maré
e deixassem a descoberto
uma cidade enterrada no lodo.

É difícil manter o equilíbrio.


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