terça-feira, 12 de abril de 2011

Catarse


As casas dormem ainda
ensaiando um silêncio de morte improvisada.
Nas janelas fechadas
oculta-se um rumor de luzes estranguladas.
O fogo adormecido da quimera
envelhece sob um céu sem luar
junto à rebentação das sombras
onde decifro a solidão fria do inverno
no crepitar da memória incandescente.

Personagem de encruzilhada, busco
um elo que faça ainda sentido
com qualquer coisa conhecida,
enquanto assisto ao desgaste lento das horas
a cavarem um fosso de incertezas
no parapeito arruinado da esperança.
Respiro todos os segredos da escuridão
no mármore arruinado onde repousa
um silêncio de asas mortas
e o gemer surdo do sono adiado.


Ao fundo do corredor
no átrio vago da demora
range a porta da alvorada
a abrir-se para a claridade inesperada do dia.

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sábado, 9 de abril de 2011

O poema e a bailarina de plástico


O Poema e a Bailarina encontraram-se
na solidão de um quarto exíguo,
numa noite sem estrelas nem luar,
à luz de um velho candeeiro de porcelana.
Ele, vive no versos e sonetos rabiscados
de um inacabado livro de mesinha-de-cabeceira;
Ela, presa no mecanismo magnetizado
de uma caixa de madeira pintada à mão.

Ela deixou-se prender pelo ritmo dolente
das palavras ternas que ele lhe sussurra
e Ele, pelo seu corpo de plástico colorido
a rodopiar ao som de um piano metálico.
Incapazes de se libertarem daquele feitiço,
aguardam ansiosamente pela noite;
Ela, encerrada na escuridão da caixa fechada;
Ele, nas páginas vazias do livro por escrever.

Quando o poeta se entrega a si mesmo,
mergulhado na tela colorida dos sonhos,
e seu pincel traça cristalinas paisagens
sobre cavaletes de espuma e vento;
a magia, todas as noites renovada,
acende-se na penumbra sufocante do quarto
libertando os amantes acorrentados
às frias amarras de um estranho destino.
Ela, das profundezas de um camarim soterrado,
emerge, com seu vestido de seda branco
e um realejo de fantasias por satisfazer,
enchendo o quarto com arrebatadas danças.
Ele, abre asas e desliza nos céus de papel,
ao ritmo da melodia que rasga o silêncio
em exaltados versos que ganham vida,
imortalizando uma paixão impossível.


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quarta-feira, 6 de abril de 2011

No fundo das gavetas


Dou uma volta pelo fundo das gavetas
onde velhas palavras repousam
no pó amarrotado de folhas esquecidas

tinta seca de outros dias
na face por polir de versos rejeitados


Dou uma volta pela inspiração gasta
que geme na clausura do tempo
à procura de antigos sentimentos

qualquer coisa que faça renascer
a juvenil fantasia do teu rosto esbatido

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domingo, 3 de abril de 2011

Longa espera


Sentamo-nos hoje,
sobre o dia de ontem,
esperando o amanhã
que tarda em chegar.
A roda do tempo
correu todas as estações
e já é inverno de novo
no calendário das horas vagas.

Abrimos a janela
ao tempo estático
que se demora
nos relógios que nunca atrasam,
enquanto cresce a impaciência
no átrio da gare deserta
onde os dias derretem
numa vertigem de ponteiros.

À hora marcada,
passa num vagão fugaz,
a esperança que se esfuma
por entre os dedos encardidos.
Sentados sobre o dia de ontem,
exaustos de tanto esperar,
há muito já esquecemos
aquilo que nunca irá chegar.

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quinta-feira, 31 de março de 2011

Memórias efémeras


A paisagem não guarda memória
dos rostos que a atravessaram
nem dos sorrisos que se perderam
na moldura de sombra do poente.

O tempo, alheio aos desígnios da luz,
sacode todas as recordações
que não encontraram guarida
na excessiva sucessão de manhãs.

As pedras descoloridas do caminho
cobriram-se de musgo e nostalgia;
as árvores, ora vestidas, ora despidas,
estendem os braços para o horizonte
e permanecem de pé,
mastigando uma solidão de raízes;
mas, dos rostos sorridentes
que um dia atravessaram a primavera,
não guarda a paisagem qualquer memória.

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sábado, 26 de março de 2011

Alzheimer


















Ruiu a ponte gasta
que me levava à outra margem
e nenhum barco avisto
deste lado do silêncio.
O dia fecha-se num ocaso salino
e a luz desvanece-se
num voo de sombras perdidas
sobre o leito seco da memória.
Como uma estrela decadente
atraída pelo buraco negro do vazio
tombo no fundo cego
de um alçapão de névoas.

Não sei já quem sou
ou aquilo que algum dia fui.
Tudo se desvanece dentro de mim
numa maré de poeira e esquecimento.
Não reconheço nenhum destes vultos
que murmuram nos véus da penumbra
nem o brilho anónimo e distante
dos olhares que se confundem
numa metamorfose de rostos sem feições.
Confuso, vacilo na retina enferrujada
de um labirinto de fantasmas
mendigando o sol exilado
de velhas lembranças que me pertenceram.

Órfão de um passado sem retorno
persigo o cortejo de sombras
nas paredes caiadas de escuridão
por entre a luz que me resta
e ecos que o vento, ocasionalmente,
traz do outro lado da margem
onde completamente me perdi
à procura de mim.

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quarta-feira, 23 de março de 2011

Velha infância


Minha mãe invoca constantemente
imagens de uma velha infância,
como se se tratasse de uma vida anterior,
sepultada nas distantes orlas do tempo.
A sua própria infância.
Um palco secreto
povoado de rostos e lugares míticos
onde se abriga da monotonia do presente,
como se o tempo tivesse parado
quando dobrou a curva da adolescência,
e nenhuma outra vida a habitasse.

Enquanto divaga,
com o olhar perdido para lá da cerca,
remoendo relíquias de um tempo distante,
antes dos céus terem envelhecido
e o sol, em queda livre,
se precipitado nos abismos do poente;
vai fiando as memórias dispersas
de uma alvorada espoliada.

Movendo-se dentro da redoma frágil
desse mundo acabado,
– a menina que um dia foi,
espreita pelos postigos secretos de outrora
nos extintos jardins de uma inocência esbatida,
teimando em trazer o sol de maio
para o outono decrépito
que lhe queima as últimas folhas.

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sábado, 19 de março de 2011

Entre o vazio que cerca as estrofes


entre o vazio que cerca as estrofes,
no chão de pedra do meu silêncio,
desenho as palavras que me restam
e nunca fui capaz de pronunciar

vinco a folha pela dobra do verso
ao atravessar um desfiladeiro de vogais
no frémito lento onde ressoam
os pássaros feridos do meu lamento

como quem borda um rio sem margens
no frio enrodilhado da pele cercada
sacudo as amarras a que me condena
a escassa luz de um coro de consoantes

e sigo o sangue pisado das metáforas
sem adjectivos para fugir ao naufrágio
no grito obscuro que serpenteia
entre o vazio que cerca as estrofes


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quarta-feira, 16 de março de 2011

Prova dos nove


deito contas ao vazio
que me sobra
ao que subtraio desta dúvida
e não acho a soma
de tudo quanto já vivi

conto e reconto,
multiplico deduções,
e me perco
nos restos de uma sombra dividida


amanhã,
quando aqui voltar,
testarei novas equações
ou, quem sabe,
a prova dos nove
daquilo que me falta viver

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sábado, 12 de março de 2011

Espelhos


É inútil tentar corromper os espelhos
ou pedir-lhes que adulterem a realidade.

Eles nunca serão capazes de mentir.

Apenas devolvem o que não lhes pertence:
as emoções que o tempo cristalizou,
a luz ancorada nas rugas do sonho,
e a cegueira embaciada do presente.

Nada recordam do passado.

Nada sabem de futuro algum.


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