sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

No último verso de um poema de amor


O poeta adormeceu e finalmente teve um sonho,
onde o mar se abria, e das suas águas rasgadas
saía uma deusa iluminada por um farol de corais.
Com asas de borboleta azul, esvoaçava
à volta de uma fogueira arrefecida pelo frio,
como uma bailarina enfeitiçada pelo desejo
a dançar descalça sobre um chão de pedra,
com o corpo inclinado na direção do sol.
No ventre, trazia dois corações tatuados
envoltos numa grande bola de fogo,
que se incendiava sempre que ela se agachava
numa pose que fazia recuar as sombras.
Seus cabelos eram um véu longo e dourado
que ondulava quando o vento movia as ancas,
numa cadência que agitava o sono do poeta
e se parecia com a respiração ofegante do mar.
Sem saber que estava aprisionada ao sonho
dançava sem cessar, sacudindo a noite do rosto,
enquanto o luar lhe rebentava nas pupilas
despertando sua ancestral vocação de musa.

Quando a manhã lhe pousou sobre os ombros,
exausta, deixou cair na areia o corpo saciado,
à espera de ser imortalizada pelas mãos do poeta
no último verso de um poema de amor.


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Reprise



Saímos de casa pela manhã
com ganas de devorar o dia
lavadinhos e perfumados
prontos para rebolar no lodo
que tolda o quotidiano dos caminhos.
Com a boca ainda ressequida
lambemos as últimas sombras da noite
e todas as esquinas do frio
antes de chegar ao café do costume
onde num ritual de asas enferrujadas
ingerimos o primeiro veneno do dia.
Entre duas baforadas no cigarro
e um tremor vago que sacode o corpo
trocamos o rosto ensonado
pelo disfarce insone que nos permite
agarrar o esplendor desabitado da vida
seguindo a linha desenhada nos passeios
com os pés a resvalar dos estribos.

Não é permitido gritar nem desviar o olhar
lemos nos cartazes coloridos
que anunciam em placardes gigantes
todo o esplendor da teia
enquanto transpomos o degrau já gasto
pela persistência mórbida dos passos
escondendo no bolso apertado das calças
as lágrimas que jurámos não derramar.
Fantasmas de uma dimensão sem idioma
despojamo-nos de tudo o que temos
para alimentar a sede de um cartão de crédito
que nos vai permitindo manter à tona
nas águas estagnadas donde nunca sairemos
lambendo a poalha inquinada das vagas
e o papel químico das manhãs
que reproduzem a repetição grosseira dos dias.
São precisas mais drogas agora
para continuar a desfiar o novelo.

À hora do almoço, como uma brisa refrescante,
uma pequena brecha se abre
no centro da arena onde nos perfilamos
como gladiadores condenados.
Uma inesperada trégua
para uma cola e uma sandes de atum
permite-nos retomar o fôlego e o alento
antes que o gemer sufocante das roldanas
retome sua cabala alucinada
arrastando-nos pelo suor dos cabelos
até aos limites esvaídos do dia
e o peso da grande roda cilíndrica
repetidamente nos volte a esmagar
como lagartas insignificantes.
Nenhuma estratégia nos vale agora.
Nenhuma droga pode suster
as foices afiadas da dor
que nos retalham a réstia de alento.

Sob o fogo extinto do crepúsculo
enxaguamos o sangue das feridas
sacudimos a poeira do corpo enrodilhado
e suspiramos fundo, três vezes,
enquanto a noite assobia detrás das colinas
o requiem do eclipse total do dia
e lentamente se fecham
os portões verdes do manicómio.
A rigidez fria dos ponteiros, obriga-nos
a uma nova travessia no trapézio sem rede
como a ave que arrasta a asa partida
deixando seu lamento de papel
nas garras do alcatrão abrasivo
e voltamos como se nada tivesse acontecido
ao ninho donde saímos pela manhã
lavadinhos e perfumados.

Antes de fechar os olhos
e nos entregarmos a um sono sobressaltado
com o coração entalado entre os lençóis
oramos um credo sem nome
a um deus que não sabemos se nos escuta
e rebobinamos de novo a fita
para amanhã assistir ao mesmo filme.


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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O bicho da folha


A lagarta deslizou sobre a folha
com um apetite de sílabas tenras
arrastando o corpo disforme
tudo devorando à passagem.
Suspensa nos troncos finos do poema
sugou a seiva que sustinha as estrofes
empanturrou-se com os mais suculentos versos
arrotou a baba de todas as rimas
e só deixou palavras descarnadas
nas mãos lambidas do poeta.


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sábado, 28 de janeiro de 2012

Cupido adormecido


Exausto de tecer as secretas paixões
que o destino baralha constantemente
com mão ciumenta e enrugada
o pequeno cupido pousa o arco
e as flechas de ponta aguçada
com que atiça o desejo dos amantes
e deixa-se afundar num sono profundo
sonhando com a eternidade do amor.


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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Infância adiada



as crianças sentam-se no banco
onde não tem jardim
a brincar com o verde
onde não corre a esperança
na manhã que desperta
onde não brilha o sol
num lugar de encruzilhadas
onde não existem caminhos
num sonho de asas inchadas

onde já não há crianças


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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Persistência da memória


Os ponteiros parados
numa baça vigília
marcam a réstia estéril
de uma febre de encruzilhadas;
a visão de um lume antigo
no fundo negro da tela
a diluir-se na erosão dos equinócios
e na abstrata paisagem
onde o vazio embala
a herança errante
da transparência corroída das manhãs.

A voz de uma ressaca anónima
num horizonte de espelhos enrugados
tece o sono vago dos dias
acorrentados a um corredor de névoas
num exercício de obscuros ócios
mastigando a insónia lenta do tempo
no estertor nostálgico
e persistente da memória

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Secreta respiração dos amantes


Entre os véus de fumo aveludado
que tecem o cristal dos aromas noturnos
mãos enlaçadas num suor de luzes escondidas
procuram a sedução proibida dos corpos
nas camas de cascalho e plumas
onde a explosão de lava dormente
cresce nos lábios derretidos do vulcão.

Nos tetos suspensos do luar
um roçar de asas estendidas
acende um fogo de leques transparentes
a queimar o incenso de línguas rasgadas
num ritual de secretos desejos
por detrás das portas onde pulsa
o clamor febril das fogueiras.

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sábado, 31 de dezembro de 2011

Calendários vencidos


No rosto renovado dos calendários
não cabem os dias antigos
nem a glória daquelas tardes
em que, descalço
trepavas ao cimo das figueiras
e te achavas dono do destino.

Os cântaros de barro já não guardam
as águas puras da fonte
onde bebias a luz das manhãs
mitigando uma sede de conquista.

Um outono cego e traiçoeiro
diluiu o colorido do horizonte
no vento que inquinou todas as memórias
com um rumor de chuva e folhas mortas.

Para lá da cancela que guarda o tempo
a tua infância perdeu-se
no bosque de sombra estagnada
onde vão morrer os calendários vencidos.

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FELIZ 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Roda Viva


As crianças dão as mãos 
e formam uma grande roda 
onde a voz secreta do fogo 
liberta as eternas melodias 
capazes de suster por momentos 
o zumbido silencioso da morte 

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FELIZ NATAL
A TODOS AQUELES QUE ME VISITAM
E TORNAM POSSÍVEL ESTE SONHO
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sábado, 17 de dezembro de 2011

Na volúpia do teu corpo incendiado


Sente o vento lambendo as janelas
com cristais de chuva
escrevendo o meu nome
nos vidros embaciados
onde em silêncio me esperas

Recolhe esse sopro inquieto
que de longe te estendo
numa maré de esvoaçantes desejos
a rebentar de encontro às muralhas
da tua transparente nudez

enquanto refaço em segredo
os passos que me faltam
para abraçar tua claridade dispersa


Gastei todos os meus dias
perseguindo teu perfume serpenteante
no chão íngreme da distância
onde os sonhos envelheceram
numa ilusão de pálpebras gastas

à espera de ver acender nas margens
a fogueira que guia na noite
os passos que me restam
para finalmente me perder
na volúpia do teu corpo incendiado

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