O poeta adormeceu e finalmente teve um sonho,
onde o mar se abria, e das suas águas rasgadas
saía uma deusa iluminada por um farol de corais.
Com asas de borboleta azul, esvoaçava
à volta de uma fogueira arrefecida pelo frio,
como uma bailarina enfeitiçada pelo desejo
a dançar descalça sobre um chão de pedra,
com o corpo inclinado na direção do sol.
No ventre, trazia dois corações tatuados
envoltos numa grande bola de fogo,
que se incendiava sempre que ela se agachava
numa pose que fazia recuar as sombras.
Seus cabelos eram um véu longo e dourado
que ondulava quando o vento movia as ancas,
numa cadência que agitava o sono do poeta
e se parecia com a respiração ofegante do mar.
Sem saber que estava aprisionada ao sonho
dançava sem cessar, sacudindo a noite do rosto,
enquanto o luar lhe rebentava nas pupilas
despertando sua ancestral vocação de musa.
Quando a manhã lhe pousou sobre os ombros,
exausta, deixou cair na areia o corpo saciado,
à espera de ser imortalizada pelas mãos do poeta
no último verso de um poema de amor.
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