sexta-feira, 4 de maio de 2012

Solução final


Os corpos despem-se
para mostrar o medo
tatuado no frio dos ossos
como quem encena um ritual
num espelho de memórias
que nunca se irão dissolver
ou quem vem do fundo do abismo
com a cegueira no olhar
para ficar gravado
no néon de uma luz demente

Os corpos respiram
enchendo os pulmões
num grito de lenha calcinada
e se encolhem no fumo
de um céu estilhaçado
como estrelas enrugadas
a destilar a nova estética
de uma febre coletiva
que a noite cospe
pelas chaminés do tabernáculo

Os corpos sem destino
são só o irrelevante pormenor
de uma alegoria escarlate
que nos visita enquanto dormimos;
um pesadelo de sombras inquinadas
num vagão de cinzas
a abarrotar de ossos doentes;
o refinado requinte do ódio
a confundir-se com o silvo disforme
que anuncia o fim da linha

O fogo
é agora a derradeira solução
desses corpos despidos de esperança
a caminho de lugar nenhum;
a expiação de um veneno
que nem os olhos conseguem descrever
e, a morte,
pintada com absurdas cores,
é apenas um recomeço
para aquilo que foi interrompido




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10 comentários:

Reinadi Sampaio disse...

[...] Holocausto... Gás... Água camuflada no silêncio... Tormento...
Fogo: claros motivos, inconfessáveis fumaça!

[...]

[...] Mas, não percamos a fé,
Porque um dia tudo há de mudar,
Justiça se há de fazer,
"Como um raio, que passa do Oriente para o Ocidente"
Ou nem que seja no dia do “Juízo Final”!

Te abraço
Flor.

Rô... disse...

oi Runa,

ainda esses dias assistimos novamente a lista de Schindler,
e cada vez é mais difícil e complicado entender...
que ser humano tem o direito de tirar a vida de tantos outros...
pra dizer a verdade,
esse assunto me perturba muito...

beijinhos

Solange disse...

um poema forte, retratando a submissão humana, perante o poder insano de uma pessoa que encabeça o lado negro da história.

bjs.Sol

Gracita disse...

Oi Runa
Uma realidade dura e inaceitável. Mas não podemos perder a fé. Um dia que espero não estar muito longe essa dura realidade há de mudar para melhor.
Muito profundo! Encerra uma uma tristeza que machuca. Um lindo final de semana.
Beijinhos com carinho
gracita

BlueShell disse...

Bom dia meu aigo...
imagens que ferem...palavras a acompanhar...tão expressivas. Seria bom que a memória do Homem não fosse curta!
fazes bem em relembrar; nunca é demais. O meu beijo
BShell

Vera Lúcia disse...

Olá Runa,

Deixo aqui uns versos de um poema de Oriza Martins:

"Como entender tanta injúria,
Tanta atividade espúria,
Maldosa, feroz, insana?…
A revelação mais dura
Da face mais obscura
Da natureza humana…"

Caminhamos sob as cinzas do Holocausto, que manchou definitivamente a humanidade.

Concordo com a BlueShell. Relembrar é preciso
para que não se repita atos de tamanho horror.

Grande abraço.

mfc disse...

O horror de um recomeço que não se deseja...

silvioafonso disse...

.




Runa, meu véio.
Domingo é o dia das mães,
mas como o infortúnio não
tem critério de escolha eu
antecipei o texto justifican-
do nele o nosso amor por
elas.

Espero você lá,

Palhaço Poeta







.

Sonhadora disse...

Meu amigo

Uma triste realidade documentada em imagens chocantes e num poema gritante.

Um beijinho
Sonhadora

hesseherre disse...

Runa, não vejo outro caminho se não o de sub-titular esta poesia assim:
"A AMADHINEJAD, COM A ESPERANÇA DE QUE SEU FIM DE VIDA TORNE O SOFRIMENTO DESTA GENTE UMA VERDADEIRA MATINÉE INFANTIL...."

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