terça-feira, 5 de julho de 2011

Além mar (a descoberta do Brasil) *



Gaivotas de vento ancoradas num litoral de búzios
sopram ecos de um céu azul e esvoaçante
que se confunde com as algas esverdeadas do teu corpo
na linha transversal do horizonte profundo,
no além mar do oceano que nos separa.

Enlaça-me no anzol de espuma das marés
com a fúria tempestuosa de todas as bússolas,
liberta-me das amarras de pedra da lonjura,
resgatando ao fogo o desejo que incendeia
o vidro baço das margens tatuadas do teu olhar
no êxodo das grandes aves de coral a desaguar
no estuário de luz dos meus lábios navegantes.

Sussurra-me todas as caravelas da tua respiração
no dorso soalheiro dos areais perfumados,
revela-me todas as rotas impossíveis
para chegar às dunas esquecidas do teu peito,
ensina-me o caminho salgado das ondas
e a secreta cartografia que me faça naufragar
na transparente rebentação dos teus desejos.

Leva-me pela mão através do voo rasante das vagas
e do canto de farol das sereias aprisionadas
numa ausência de rochedos por transpor,
a sul de todos os mapas por descobrir,
no rasto arcano das conchas famintas
onde guardas o sal de todas as conquistas.


* Poema dedicado à amiga Reinadi Sampaio (http://sonetosedelirios.blogspot.com/)
por me ter lançado este desafio e feito redescobrir o Brasil.
_______________________________________________________
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19 comentários:

Marly Bastos in "palavreados ao vento" disse...

Pois não é que você redescobriu o Brasil?? E de maneira lírica. Amei!
Parabéns consegui superar o desafio com lirismo.
Beijokas!

M. disse...

Redescobrir por si só, já é bom.

Escrito assim, é melhor:)

Flor de Jasmim disse...

Runa
Abençoado desafio, com este maravilhoso redescobrir por ti meu amigo. Amei.
Beijo

Graça Pereira disse...

Meu Querido
Por certo, Camões teria inveja e aprenderia contigo a ultrapassar o Cabo das Tormentos.
Desafio ultrapassado.
Beijo
Graça

MARILENE disse...

Descreveu de forma belíssima o descobrimento. E penso que cada um de nós ainda tem muito a descobrir sobre nosso Brasil.

Bjs.

Sandra disse...

Amigo Runa
que texto espectacular!
A tua escrita é de facto além fronteiras, além mar.
beijinhos

Reinadi Sampaio disse...

Runa, nunca poderia imaginar que meu momento de convalescença (pós cirúrgico e quase fim ou inicio, quem sabe, pois nunca teremos essa certeza), pudesse surgir algo tão belo como tuas palavras, quando falei da tristeza que sentia ao ver o mar cinza, debaixo da chuva, por entre as linhas paralelas dos edifícios, e pensava no sol, lá distante, além-mar, uma vontade imensa de retornar para minha casa, para o aconchego dos braços dos meus filhos, só assim eu conseguia vislumbrar os olhares de todos através das águas do mar. E palavras me faltavam, os dedos não conseguiam escrever, acompanhar meus pensamentos (risos... acostumada a dedilhar no teclado), mas consegui, e escrevi tudo que vislumbrei além-mar quando os olhares se cruzam.

(e comentaste que 'Além mar' era um belo tema, então te convidei a escrever o poema, sem saber o que eu havia escrito).

Obrigada meu amigo, meu irmão de Luz!
Abraço-te fraternalmente.
Flor.

C. disse...

Acho nunca li antes um poema que falasse tao gostoso sobre a terrinha. O que se ouve de lá normalmente é o que quer calar.

Flávio Antunes Soares disse...

Li teus textos, são de excelente qualidade, pois contém muita poeticidade.

Vera Lúcia disse...

Fantástico esse redescobrimento!
Abração.

* Verinha * disse...

Lindo poema Runa!.. Parabéns!
Beijo grande em seu coração e grata por sua visita!

Verinha

нєllєи Cαяoliиє disse...

Runa,
Redescobrir por si só,não há de ter coisa melhor!
Mas creio que ainda nada descobrimos do Brasil,da vida!
Parabéns pelo poema,um encanto de descrição.
Beijos

marlene edir severino disse...

Carta de navegação
em poesia...

Não há como se perder nesse tanto mar!

Abraço afetuoso

Marlene

Jorge Manuel e Daniele Dallavecchia disse...

Amigo Runa, fazia tempo que não te via no blog, bom demais receber a tua visita, fiquei comovida com teu comentário e vim aqui retribuir e então, deparo-me com este poema divinamente bem cosntruído e com uma poética da mais alta qualidade. As imagnes que construíste no poema nos saltam aos olhos...resumindo, está um espetáculo! Meus parabéns!!!!
abraços e tudo de mais belo!

CF disse...

A navegar assim pela escrita, decerto o ter lá ido não será impedimento para arrebatamento da imaginação...que é coisa de tens de sobra :)
Para além da alma poeta...
Runa, parece-me que conseguiste encontrar alguma luz e é evidente que a transmites aos outros na tua escrita...felicito-te por isso :)
Abraço

Elis disse...

Runa

Tão bom ver você redescobrindo o nosso Brasil, com tanta poesia e sentimentos. Cada vez que visito o teu blog, me surpreendo positivamente. O poema a seguir é inspirado no teu e dedicado a sua amiga Reinadi, que foi sua fonte de desafio e também inspiração.
Abraços.

Saudades da minha terra...
Do azul daquele mar.
Dos ventos quentes nas palmeiras
E do amor em teu olhar.

Saudades de minha casa...
Cujo cheiro está em mim.
Fecho os olhos e ainda vejo
cada canto e cada livro,
cada flor do meu jardim.

Saudades daquela que fui...
Dos meus tempos de criança,
dos gritos de inocência
e dos sabores ainda vivos na lembrança.

Saudades d'além mar...
Daquela terra mãe gentil.
Da tua gente bonita...
Saudades de ti, meu Brasil.


(Elís Cândido/julho de 2011/dedicado a Reinadi Sampaio, com votos de plena recuperação)

Reinadi Sampaio disse...

Runa, meu irmão, eu peço licença para agradecer o poema da Elis Cândido e aproveito para aqui deixar o poema que escrevi, e, apenas o nome te serviu de inspiração e que muito nos surpreendeu quando trocamos os poemas e percebemos que falamos de formas semelhantes em muitos trechos, embora em abordagens diferentes.


Elis, eu resido em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. O mar sempre me fascinou, sou artista plástica e em todas as minhas telas, tenho o mar como inspiração, como também em quase toda minha poesia cito o sol.
Obrigada por tanto carinho:
Além mar... Quando nossos olhares se cruzam...



Ó mar! Vislumbro-te no orvalhar dos meus olhos,
Para além do meu olhar, cerrado...
Nas noites de solidão, quando o sol se vai
E a chuva cai, salpicando as areias
Batendo e rebatendo no azul das tuas águas...

Suplico-te, mar! Sorria... Não chora!
Se chorares, quero o teu sentir
De lágrimas de águas perfumadas...
Agradece a beleza do teu perfume que exala
Pelas algas e o sal Divino que sai das tuas entranhas
Percorrendo todo o teu corpo...

Ah! o mar...!
Teu perfume... Teu cerne...
Como falar de ti que não fosse assim?
Como poderia ser diferente,
Se me deixas sem palavras
Com a maior das facilidades...
Toda vez que te vislumbro entre linhas paralelas
– La ao longe, junto à linha do horizonte e o infindo!

Esse, um segredo,
Que ainda vais-me contar um dia,
Essa tua forma de deixar-me toda à toa...
Pois, choro e rio feito um rio louco...
Quando nas tuas águas deságuo,
E sou por tuas ondas, levada,
Sem palavras... Nervosa... Tímida e ousada...
Num espaço transcendental
Que está para além do mar dos pensamentos
Cujo pensamento não tem informação do que fazer...
Dizer – Mas teu perfume de mar explode
E causa uma sensação!

Esta sensação de arrepio em minhas mãos
Num ondular das ondas em espasmos
Em que nada está parado
Mas que nada se move...
De uma forma vertiginosa...
As palavras enlouquecem...
E as mãos ficam loucas,
Sem lugar ou destino...
Vagueando na frente,
Num avanço e retrocesso
– como as ondas do mar...
Inconformadas... Deslocadas...
Decididamente, sem destino...
No desejo de uma força para ocupá-las,
Um esforço para firmá-las, em algo,
Como que frustradamente,
Elas conseguissem agarrar a realidade de um porto...
Mas só o etéreo ar as sente
E na nossa frente nos perturbam...

Realmente o que fazer com as palavras,
Com as mãos, não sei... Não consigo pensar
Não obedecem... Apenas personificam o nervosismo...
Enlouqueceram...
Enlouquecidas... Realmente não sei...
Não sei o que fazer... Só sinto...
Pelo perfume que solta no ar
Pelo sorriso que deixa escapar
Pela excitação que provoca
Pelo calor que irradia e deixa a pele febril
Ou simplesmente pelos pés gelados
Em um espasmo de amor
– a barriga apertada –
Que se contrai e faz o coração em descompasso
Por que... Por que...
Não pelo ofegante da respiração,
No devorar de algo... (um cigarro),
Que não descongestiona...

Finalmente o ar sai dos pulmões...
Já não mais carecemos da íris...
Quando nossos olhares se cruzam... Além mar!



Reinadi Sampaio (eu flor-caminho só)
Salvador, 08 de julho,
Cruz das Almas, 27 de junho, 2011,
às 18h14min.

~~~~~~~~~~~~
Um grande abraço fraterno meu irmão,
Um grande abraço fraterno Elis.
Reindi (Flor).

mfc disse...

Um poema para longe onde a redescoberta é uma permanência linda!

Telma Palma disse...

gosto!
sigo ^^

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Abraço. Volta sempre.

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