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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Angústia para o jantar



O rumor do vento a atravessar os véus do crepúsculo
faz-me lembrar por momentos teu assobio antigo
quando me chamavas, ao longe, para ir jantar
e eu tinha de abandonar a brincadeira e correr para casa
por temer que te zangasses com a minha demora.
Abro os olhos, atento ao movimento subtil das sombras,
na ilusória esperança de descortinar tua silhueta,
teu braço erguido a acenar à entrada do pátio
como quem chega de um lugar distante e esquecido.
Mas essa entrada já não existe, e tu também não.

Há muito que deixei de ser o menino que brincava na rua
e que em ti encontrava a segurança de um agitado esvoaçar.
Inquieta-me agora a ideia de não saber por onde andas,
em que esconsos caminhos te perdeste, dentro da noite,
e também eu me sinto perdido, sufocado pela tua ausência,
que recordação alguma poderá preencher. São horas de jantar
e não tenho apetite nem vontade de voltar a casa.
Se soubesse assobiar como tu o fazias, chamar-te-ia
para que viesses correndo e não te atrasasses,
mas não consigo mais do que um sopro rouco e apagado
que de certeza nunca serás capaz de escutar,
ou talvez escutes e nem sequer possas responder;
não possas largar tudo aquilo que tens para fazer
para regressar esta noite, e sentares-te comigo à mesa.

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

No fundo das gavetas


Dou uma volta pelo fundo das gavetas
onde velhas palavras repousam
no pó amarrotado de folhas esquecidas

tinta seca de outros dias
na face por polir de versos rejeitados


Dou uma volta pela inspiração gasta
que geme na clausura do tempo
à procura de antigos sentimentos

qualquer coisa que faça renascer
a juvenil fantasia do teu rosto esbatido

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quarta-feira, 23 de março de 2011

Velha infância


Minha mãe invoca constantemente
imagens de uma velha infância,
como se se tratasse de uma vida anterior,
sepultada nas distantes orlas do tempo.
A sua própria infância.
Um palco secreto
povoado de rostos e lugares míticos
onde se abriga da monotonia do presente,
como se o tempo tivesse parado
quando dobrou a curva da adolescência,
e nenhuma outra vida a habitasse.

Enquanto divaga,
com o olhar perdido para lá da cerca,
remoendo relíquias de um tempo distante,
antes dos céus terem envelhecido
e o sol, em queda livre,
se precipitado nos abismos do poente;
vai fiando as memórias dispersas
de uma alvorada espoliada.

Movendo-se dentro da redoma frágil
desse mundo acabado,
– a menina que um dia foi,
espreita pelos postigos secretos de outrora
nos extintos jardins de uma inocência esbatida,
teimando em trazer o sol de maio
para o outono decrépito
que lhe queima as últimas folhas.

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sábado, 12 de março de 2011

Espelhos


É inútil tentar corromper os espelhos
ou pedir-lhes que adulterem a realidade.

Eles nunca serão capazes de mentir.

Apenas devolvem o que não lhes pertence:
as emoções que o tempo cristalizou,
a luz ancorada nas rugas do sonho,
e a cegueira embaciada do presente.

Nada recordam do passado.

Nada sabem de futuro algum.


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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Respira ainda dentro de mim


Respira ainda dentro de mim
uma réstia arrefecida de ti,
estranho epitáfio de folhas mortas
entre poeiras e cinza calcinada

Respira ainda dentro de mim
o clamor surdo do teu rosto,
sombras e defuntos fiapos
de um sonho que o vento cristalizou

Os ossos descarnados da quimera
arrefeceram, num charco de lamentos
e no prolongado gelo da tua ausência,
mas, na peneira triste da memória,
uma réstia sufocante de ti
respira ainda dentro de mim


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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Desbravando mares gelados



Éramos como pequenas naus de um mar atribulado
junto à rebentação das vagas nocturnas.
Fantasmas costeiros de uma sede vertiginosa
à deriva nas águas de um futuro sem horizontes.

Pulsos atados aos vapores turvos do vento
e ao leme de bússolas sem qualquer norte,
percorríamos a cartografia das vielas dispersas,
com a ânsia entorpecida das marés de verão
a desbravar pontões de areia e nevoeiro
na espuma gelada de canecas transparentes.

Entre a insónia estilhaçada das correntes
e os velhos portos onde sempre atracávamos,
dávamos à costa na dormência das algas encharcadas,
em busca da luz amputada na incerteza das manhãs,
onde repousávamos o cansaço de velas retalhadas
nos limos exaustos das tempestades sem rumo.



poema escrito em  2010-10-27

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Insónia profana



No silêncio das noites de insónia
vultos febris rondam
as areias remotas dos desertos
soterrados dentro de mim.
Salteadores sem rosto nem identidade
envoltos em turbantes de poeira
vêm, à luz de velhas tochas,
pilhar os túmulos arrefecidos da memória.

Acampam em tendas de ventania
nos vales extintos do passado;
batem com as picaretas no solo,
enfiam as pás nas fendas esconsas
e escavam, revolvem, profanam
as riquezas e misérias deste templo,
trazendo à luz anónima do luar
aquilo que estava destinado à escuridão
e às sepulturas eternas do esquecimento.






poema escrito em 2010-08-04

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Coração cativo



Vivo aqui escondido
Num buraco escavado na lama
A espreitar pelas grades do postigo
A ilusão que ao longe me chama

Vivo aqui esquecido
Nesta tumba de solidão
À espera que o sonho arrefecido
Me liberte da tua recordação


poema escrito em 2008-04-05
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