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sábado, 4 de junho de 2011

Sabores fortes


O amor pode ser comparado
a uma chávena de café,
fumegante e aromática.
Sento-me à mesa do desejo
e deixo-me levar pelos sabores fortes
que a minha imaginação tece
enquanto espero o café que pedi.


Se o levar aos lábios, no entanto,
sem lhe juntar um pouco de açúcar,
será um gosto amargo e intragável
aquilo que ele me irá devolver,
e nunca serei capaz de esvaziar a chávena
e apreciar toda a extensão do seu sabor,

assim como, sem o mel do teu corpo,
nunca saberei a que sabe o amor.

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sonhos de argila



Talvez um dia
o destino se baralhe
no rumo trôpego dos seus passos
e eu te veja chegar,
num golpe súbito de asas,
por entre as serpentes ondulantes
de uma miragem.

Talvez eu ainda te espere
debaixo de uma chuva ácida
que me corrói o desejo,
e tu, dobrando a esquina
dos becos soterrados no peito,
com o arco secreto do teu ventre
acendas uma luz colorida
na íris desbotada do meu rosto.

Talvez a vida, afinal,
seja apenas um sonho confuso
onde tudo é permitido
e, despindo a argila que te cobre,
tu rasgues todas as distâncias
e me estendas tua mão,
no fugaz esplendor
de uma estrela cadente.


poema escrito em 2010-12-01

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Passaporte para novas dimensões




Todos os dias
vejo o sol nascer e se suicidar
no mesmo patíbulo sujo de sangue
e entranhas dilaceradas,
numa asfixiante perspectiva
despida de qualquer encanto.
Prisioneiro dos despojos das manhãs
e duma estranha geometria do vazio
vivo acorrentado ao pedestal gradeado,
como uma estátua de asas de chumbo,
sem respirar.

Vivo numa fornalha de incandescentes sensações
onde os sonhos se fundem,
atrofiados,
nas chagas rasgadas do entardecer,
sem saber ainda, se será teu corpo
passaporte para novas dimensões,
ou apenas o secreto desejo
de escapar, por momentos,
desta teia que o destino me bordou.






poema escrito em 2009-04-25
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