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domingo, 29 de maio de 2011

Lenda do cavaleiro perdido


Dobrando as falésias brancas
de um tempo que se esgotou
num círculo de crepúsculos encandeados
um cavaleiro sem rumo,
montado no dorso da distância,
erra por entre as vastidões de névoa
procurando um caminho que não existe.
Ao longo das margens perdidas
de uma terra de ninguém,
apressa seu corcel exausto
com a pressa de chegar ainda
a um futuro para sempre adiado.

A saliva ensanguentada das marés
tingindo as chagas de um areal obscuro
empurra-o para um labirinto de dunas
onde o canto lamurioso das aves do poente,
traçando estranhos presságios no horizonte,
anuncia a impossibilidade de um prometido retorno.
A manhã fecha-se,
por entre sombras e miragens,
ferida pela ausência do sol
e o encolher de ombros dos deuses,
ocultando todos os caminhos
ao cavaleiro que cavalga sem destino
no perpétuo e cerrado nevoeiro
onde eternamente se perdeu
sem encontrar ventos favoráveis.

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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Polaridade invertida


O olhar perdido na sombra do alpendre
bebe o pouco que resta, da luz estagnada
no estuque arruinado dos muros
e na terracota de longínquas memórias,
onde um eco de vozes sussurrantes
entoa a cantiga esquecida dos ventos.

Os pássaros sombrios do outono
desceram as colinas do teu corpo enrugado
onde o alento mirra, em cada folha que cai,
em cada novo dia que te desfolha,
na tristeza do musgo que trepa a pedra fria
nos últimos degraus do crepúsculo.

Vencida pelos limites vagos do futuro,
refugias-te nas varandas do passado,
e descobres que há um tempo na vida
em que a polaridade dos sonhos se inverte,
e a ilusão caduca dos dias vindouros
reverte àquelas manhãs antigas, em que
o sol dançava na linha morna do horizonte.



poema escrito em 2010-09-20
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