
Uma estranha cegueira há muito havia toldado a paisagem do dia
ofuscando a luz com um manto de bruma densa e persistente.
Os feiticeiros falavam numa suprema ira do divino.
Diziam que o sol estava doente e aconselhavam orações e penitência,
mas o povo sabia que uma maldição se havia abatido sobre a tribo
e duvidava que algum dia se voltasse a ver a claridade do dia.
Os poderosos, contrariando todas as evidências,
falavam efusivamente num futuro promissor e radiante,
invocavam delirantes teorias e fórmulas mágicas
anunciando que toda a bruma seria dissipada em breve
se confiassem na sua palavra e seguissem todas as orientações.
Só os sábios anciãos nunca se pronunciavam.
Tinham deixado de emitir opiniões, pois já ninguém os escutava.
O tempo ia passando, numa sucessão obscura de anos,
e o sortilégio da aparente cegueira, permanecia,
sem que houvesse alguém capaz de desvendar o mistério.
Ninguém se lembrava já de outro tempo que não fosse
o dessa maldição de cinzas e enxofre a devassar os horizontes,
excepto os cantos antigos que eram secretamente invocados
e as histórias ainda murmuradas pelo povo, de boca em boca.
Os poderosos haviam, aos poucos, inibido qualquer apelo
a um passado luminoso, condenando-o a um rincão da memória
e ao inverosímil mundo das lendas e de obscuros mitos.
Um estranho cavaleiro montado num fogoso cavalo branco
chegou um dia, vindo de terras distantes e desconhecidas.
Contrariamente aos feiticeiros e poderosos da lei,
expressava-se numa linguagem que todos entendiam
e depressa conquistou o coração angustiado do povo
angariando uma legião de humildes e fiéis seguidores
que nele viam um poderoso enviado dos deuses.
Quando lhe perguntaram qual seria a cura para a escuridão
que ofuscava a claridade cativa do sol, disse, sem pestanejar:
Desliguem a máquina de gerar névoa e começaram a ver.
Os feiticeiros logo o acusaram de demente e herege.
Um visionário e impostor que tentava sublevar o povo
desrespeitando as leis e ancestrais tradições da tribo.
Teria de ser rápida e exemplarmente punido, bradavam.
Aliaram-se aos poderosos, que tudo controlavam
com o frequente recurso ao uso da força e das armas,
e apressadamente o levaram a julgamento em praça publica.
Os anciãos murmuraram em surdina, mas não se opuseram.
Recolhidos numa concha de silêncio e medo,
incapazes de contrariar a fúria daqueles que detinham o poder,
viram o cavaleiro, depois de barbaramente espancado,
ser sumariamente condenado e executado.
Aos poucos, a vida no seio da tribo regressou à normalidade,
devolvida à obscura e difusa cegueira que ainda a tolhe.
Alastra agora a convicção profunda e inabalável de que
a luz é altamente prejudicial à saúde e bem estar de todos,
causadora de chagas e enfermidades de toda a espécie.
Só a bruma, espessa e protetora, os poderá resguardar
e manter a salvo, de sabe-se lá que calamidades.
A memória do cavaleiro errante foi-se esbatendo lentamente
e já ninguém se lembra mais da máquina de gerar névoa.
O povo mantém-se ocupado com seus demasiados afazeres.
Os sábios anciãos sonham em segredo com a claridade perdida.
Feiticeiros e poderosos continuam a gerir os destinos globais.
E o sortilégio da escuridão perdura ainda, asfixiando os horizontes.
_______________________________________________________________