quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O grito


O pintor desenhava na tela
intricados dédalos
onde vagueava pelas tardes
à procura de um caminho.
Um norte qualquer
para uma ponte que não existia.

Até a paisagem se toldar
num crepúsculo adiado
e os traços difusos do pincel
lhe devolverem as cores densas
de um grito
tolhido no frio da boca.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Jogo de espelhos


Esboço um bater enferrujado de asas
incapaz de retomar o rumo do voo
interrompido pela chegada do temporal
e todos os dias me deixo retalhar
pelo frio que desce com a noite
envolto numa adaga silenciosa

Há um poço seco e profundo
onde outrora havia uma árvore.
Um aviso para os que ainda sonham
agarrados a uma visão antiga.
Um mal que a paisagem regurgita
e se estende para lá do fim das ruas

Uma voz sai de dentro dessa fenda
como um animal exposto ao frio,
um lamento que o vento desfralda
onde o inverno moldou o barro
que coalha agora a sombra dos becos
que galgam os patamares das casas

Arrastando as asas no alcatrão
busco um mapa que me revele o caminho
ou um sentido que me oriente para a claridade
até que o encantamento termine
e eu deixe de ser apenas um reflexo
devolvido pela ânsia cega dos espelhos

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Amor: palavra proibida


Existe uma palavra proibida
na gramática negra dos abismos.
Uma palavra atravessada pelo silêncio
que clama do fundo da noite
e dos recantos mais sombrios
onde foi um dia aprisionada.
É uma voz antiga e amordaçada
que encerra no seu seio,
na luz branca das sílabas esquecidas,
o poder de derrubar fronteiras
e o sopro eterno que acende universos.

Constantemente crucificada
e substituída por estranhos sinónimos
que dissimuladamente a deformam
e nada dizem da solidão do mundo
sangra no frio prolongado dos corações
como uma bênção rejeitada
ou uma ferida incapaz de cicatrizar,
murmurando em surdina
num eco que não se pode extinguir
e nos lábios dormentes do poeta
a sua ânsia de ser de novo revelada.


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sábado, 1 de dezembro de 2012

Perfume de flor


O perfume de uma flor
não se esgota
no orvalho matinal
nem se tolda
com o voo rasante
das abelhas do vento.
Como uma ânfora azul
aberta às caricias do sonho
contrai os lábios
acumulando ao longo do dia
novos aromas e fragrâncias.

Ao entardecer
o sol verga-se sobre si mesmo,
as borboletas dobram as asas
e se transformam
num sentimento novo e indecifrável,
a luz do dia lentamente murcha
na secura estéril dos canteiros,
mas, o perfume de uma flor,
reinventa-se a cada hora
e jamais se esgota.

Pelo menos,
enquanto durarem as variações do fogo;

a sedução do amor.



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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Sigilo

Foto: Queen_of_the_Damned (http://exogenbreach.deviantart.com/)


Cada face que atravessa o frio destes ladrilhos
espelha um segredo que não se pode decifrar
um fio escasso de luz a aproximar-se da nudez
com que a noite se encaminha para a sombra

Ninguém sabe ainda onde começou esse rumor
que nos chega como uma respiração ofegante
um vestígio de poeira a esconder uma presença
que não se há de saber nunca a quem pertence

O que sabemos é que as palavras se esvaem
à medida que vamos descendo dentro do poema
e lentamente nos cerca um silêncio de tinta gasta
como uma prece antiga que o tempo esqueceu
ou um sigilo que não ousamos sequer pronunciar


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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Lar de idosos


Um sótão de eternas velharias
guarda uma paisagem virada do avesso
as cores exíguas de uma sina exilada
sem porta nem janelas
por onde a claridade possa respirar

A aranha cerca os cantos da casa
corroendo a geometria das paredes
lado a lado com a poeira empilhada
onde numa lenta insónia colige
suas teias de fio de baba e alabastro

Sombras de uma luz esvaída
na intimidade oxidada da ruína
flores secas mirram à ponta da mesa
sobre a toalha enrugada
numa jarra branca de porcelana

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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um novo ciclo


Acordo subitamente de um sonho denso
com a boca a saber-me a cinza fumegante
e os níveis de alcatrão e nicotina no sangue
perigosamente abaixo dos mínimos permitidos.

Como um frémito que me tolda os sentidos
todos os alarmes soam ao fundo do corredor
onde os demónios da tentação rastejam
afiando as garras de encontro à porta.

Enrolo os dedos na mortalha branca do lençol
com vontade de me levantar e desistir, mas
fecho os olhos, e sonho com casas incendiadas.
Há sete dias que não fumo qualquer cigarro.

Incapaz de saborear o prazer do primeiro café
arrasto-me na solidão da manhã, e me interrogo:
se a resistência será um ato heroico e descomunal
ou apenas o início de um novo ciclo de terror?

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domingo, 14 de outubro de 2012

No fim da terra


Aqui onde a terra acaba
aos pés de um mar salgado e decrépito
vive uma raça de gente vergada
aos despojos da rebentação
gente que caminha junto às margens
a decifrar num areal silencioso
o mistério da mudez dos búzios
e dos sonhos que no horizonte se perderam

Aqui neste retângulo de areia
onde já não brilha a luz do farol
e os barcos se quedam no cais
ancorados numa agonia enferrujada
vive a esperança que definha
nos vultos que se debruçam ao relento
sobre a espuma inquinada da memória
vergados pela exaustão do medo

Aqui neste outono encurralado
a sul de nenhum norte
onde os dias se dispersam pelo vento
e os cavalos continuam perdidos no nevoeiro
sem cavaleiro
sem ninguém que agite o fulgor das bandeiras
e rasgue com a luz do facho reacendido
o caminho que as sombras toldaram

vive a gente que não teme a morte
nem a ameaça da espada infiel
e que herdou dos sonhos e dos deuses
a glória de um destino maior
porque aqui onde é o fim da terra
e o mar mergulha no azul profundo
um dia há de ser novamente
o princípio de um outro futuro.

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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Louco amor


Nenhum poema poderá descrever
a urgência do nosso encontro,
as noites impacientes que nos aguardam.
Nenhum verso, nenhuma palavra,
conhecem a sede desta loucura,
o oculto formigueiro que nos sacode.

Nada escrevas que denuncie este segredo,
deixa as páginas repousarem
na cumplicidade branca do silêncio.
Só assim haverá espaço no poema
para que o amor se transcenda
e possa galgar todas as margens.

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Fantasmas da memória


Os fantasmas da memória
chegam com os olhos inchados
e um sol encolhido
na palma enrugada das mãos,
como quem sai precipitadamente
das páginas de um livro já lido,
recuperando uma visão adormecida.
Incapazes de se resignarem
às fronteiras do esquecimento
batem com os pés na poeira do chão
reacendendo as cinzas de uma fogueira
que não se extinguiu ainda.
Com o giz branco da saudade
desenham nas paredes
um rosto que não pode ser apagado
pelas águas que a chuva devolve
nem pelo arrastar mórbido dos dias
enquanto caminham em silêncio
por entre as cortinas do vento
sem revelar por onde têm andado,
o que têm feito para resistir ao tempo,
e os secretos caminhos trilhados
do outro lado dos espelhos.
Presos a uma imagem que vou desfiando
com as unhas baças de raspar o vazio
renascem subitamente
de uma voz que se acende no escuro,
das frestas de uma janela mal fechada,
de um túnel sem luz ao fundo,
do nada onde se escondem
à espera de serem recordados.

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