
Como todo o poeta
busco o poema que me imortalize
aquele que faça prevalecer meu nome
muito para lá da minha ausência.
Não será certamente este
nem o que virá a seguir
talvez nunca o consiga escrever
nunca seja capaz de desvendar
o enigma das palavras que desafiam
a passagem insone dos tempos
e permaneçam na memória breve
daqueles que nunca me conheceram.
A cada tentativa
vou desperdiçando esse fito,
esgoto-me em silabas de fumo
que esvoaçam num frémito breve
e se rasgam nas arestas da ventania,
mas nem por isso desisto.
Iludo-me nessa busca incerta,
poema após poema,
fracasso atrás de fracasso,
rasgando as veias,
implorando às musas insondáveis
um click de inspiração,
uma luz que se acenda de súbito
no clarão branco do sonho
ou nas asas dormentes da loucura.
Talvez num dia
de rara e fugaz magia
se acenda o mistério dessa visão,
o círculo secreto do fogo
que guia a mão dos talentosos
na transparência dos trilhos,
e a soma de todos os meus versos
seja o secreto passaporte
para atravessar o anonimato
e chegar, como um deus arrebatado,
à muralha das cidades lendárias
onde ecoa a voz dos imortais.
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