segunda-feira, 25 de junho de 2012

Fechado a qualquer luz


As crianças riscam com as unhas
no branco sujo dos muros
os sinais de uma decadência
que o vento já anuncia no horizonte

Cercados pela ausência de futuro
miram-se no reflexo da cal
e apenas vislumbram a névoa
de um futuro que se fecha a qualquer luz

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domingo, 17 de junho de 2012

A cor rubra do desejo


Envolto num ritual de vertigens
persigo os trilhos do amanhecer
nos reflexos que a noite desenha
sobre o teu dorso suspenso

Há um fogo à espreita
na transparência da pele…

Cego pelo aroma dessa nudez
esvaio-me num sussurro felino
afagando os declives da tua cintura
banhada pela claridade do luar

Há um fogo que se agita
na luz tensa do desejo…

Uma dança de lírios brancos
a acender o brilho das fogueiras
cada vez que te movimentas
anunciando o derradeiro gemido

Há um fogo a explodir
no fluxo quente do teu corpo…

E tudo se incendeia à volta do leito
quando os teus lábios se fecham
libertando a dormência do pólen
que amaina a cor rubra do desejo

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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Palavra alheia


Não, eu não sou poeta.
Humildemente me confesso.
Não passo de um usurpador.
Alguém que se alimenta da palavra alheia,
como o parasita que bebe o sangue
ainda fresco do animal moribundo.
Nada sei daquilo que escrevo.
Tudo o que digo vem da voz inquieta
que me visita no sobressalto das noites,
um fantasma solitário que me habita as profundezas
recitando os versos encharcados
de um delírio que lhe fere os sentidos;
e me escolheu para legar o espólio
de uma febre incógnita e sem limites
que lhe incendeia o espírito.

Aceito a tarefa de dar luz a essas palavras
que crescem no coração da sombra;
embrulho-as na tinta azul dos dedos
e disponho-as, em breves camadas,
nas folhas despidas do caderno.
Coloco uma virgula ali, um ponto acolá,
apenas para manter um certo equilíbrio,
mas nada altero àquilo que foi dito.
No final, acrescento-lhe uma data e assino,
fingindo que fui eu quem as escreveu.

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terça-feira, 22 de maio de 2012

Encruzilhada


Ocultas na ostra encerrada da infância
repousam as pérolas que o verão cuspiu
quando na boca tinha ainda todos os dentes.
Tudo se perdeu na farsa desta paisagem
envenenada pelo enxofre que o frio respira
para se alimentar da claridade que definha.

Todos os insondáveis nomes do inverno
que acumulámos durante o embalo do sono
sobrevoam os pátios de onde nos ausentámos
como barcos à deriva no mar deserto
a serem consumidos pelo feitiço das algas
numa vertigem de ferrugem e sinais inúteis.

Nenhuma voz é o som de um bater asas
que nos devolva o rasto dos trilhos perdidos
quando a névoa esmaga a luz das manhãs
e nos mapas inconsequentes da encruzilhada
buscamos uma ponte que atravesse o abismo
ou um deus que nos mostre outro caminho.

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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Fiando o amor


Com fios de algodão
fias a flor do nenúfar
e a paisagem colorida
de um lago de serenas águas

Com fios de luz
fias o corpo do sol
e o pássaro branco
que percorre o azul do céu

Com fios de esperança
fias a árvore frondosa
e o estreito caminho
que se projeta para fora do tear
como uma porta aberta
a quem quiser entrar

Com fios de sonho
fias teu coração de prata
e repousas à sombra das margens
esperando que finalmente chegue
a hora do amor.

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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Solução final


Os corpos despem-se
para mostrar o medo
tatuado no frio dos ossos
como quem encena um ritual
num espelho de memórias
que nunca se irão dissolver
ou quem vem do fundo do abismo
com a cegueira no olhar
para ficar gravado
no néon de uma luz demente

Os corpos respiram
enchendo os pulmões
num grito de lenha calcinada
e se encolhem no fumo
de um céu estilhaçado
como estrelas enrugadas
a destilar a nova estética
de uma febre coletiva
que a noite cospe
pelas chaminés do tabernáculo

Os corpos sem destino
são só o irrelevante pormenor
de uma alegoria escarlate
que nos visita enquanto dormimos;
um pesadelo de sombras inquinadas
num vagão de cinzas
a abarrotar de ossos doentes;
o refinado requinte do ódio
a confundir-se com o silvo disforme
que anuncia o fim da linha

O fogo
é agora a derradeira solução
desses corpos despidos de esperança
a caminho de lugar nenhum;
a expiação de um veneno
que nem os olhos conseguem descrever
e, a morte,
pintada com absurdas cores,
é apenas um recomeço
para aquilo que foi interrompido




sexta-feira, 27 de abril de 2012

Combustão


Nas minhas mãos trémulas
teu corpo sereno aguarda
o fugaz poema
que escreverei esta noite
com as silabas quentes
de um desejo há muito anunciado.

De pequenos e roucos gemidos
será feita minha poesia
na rima cruzada dos corpos
formando uma única estrofe
sem versos,
sem qualquer palavra que possa trair
a febre mítica dos sentidos.

Esta noite trocarei as palavras
pela vogal sussurrante dos lençóis
e pelo frémito que percorre
a linha ardente dos teus lábios
e será este o poema
que a pena branca da alba
num fôlego derradeiro
irá pela manhã gravar
na incandescente memória
dos corpos em combustão.

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sábado, 21 de abril de 2012

Agrafia


Esqueci o começo deste poema
que compus em pensamento
e que tento, sem êxito,
estampar na nudez da folha,
atraiçoado pela tinta negra
que me mancha os dedos.

Lembro-me que falava de ti
e do desejo de te ter aqui
mas não sei que silabas inventar
para abraçar teu corpo distante
agora que a hesitação dos pulsos
encalha na inercia da memória
sublinhando o vazio da tua ausência.

Sob a luz baça do candeeiro
desenho um suspiro sem silabas
e em silêncio me deixo afundar
na erosão transparente do papel,
como uma maré que de súbito vazou
deixando a descoberto no areal
a caligrafia desfocada do teu rosto,

e até mesmo o final deste poema,
que compus em pensamento,
acabei também por esquecer.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um poema que me imortalize


Como todo o poeta
busco o poema que me imortalize
aquele que faça prevalecer meu nome
muito para lá da minha ausência.
Não será certamente este
nem o que virá a seguir
talvez nunca o consiga escrever
nunca seja capaz de desvendar
o enigma das palavras que desafiam
a passagem insone dos tempos
e permaneçam na memória breve
daqueles que nunca me conheceram.

A cada tentativa
vou desperdiçando esse fito,
esgoto-me em silabas de fumo
que esvoaçam num frémito breve
e se rasgam nas arestas da ventania,
mas nem por isso desisto.
Iludo-me nessa busca incerta,
poema após poema,
fracasso atrás de fracasso,
rasgando as veias,
implorando às musas insondáveis
um click de inspiração,
uma luz que se acenda de súbito
no clarão branco do sonho
ou nas asas dormentes da loucura.

Talvez num dia
de rara e fugaz magia
se acenda o mistério dessa visão,
o círculo secreto do fogo
que guia a mão dos talentosos
na transparência dos trilhos,
e a soma de todos os meus versos
seja o secreto passaporte
para atravessar o anonimato
e chegar, como um deus arrebatado,
à muralha das cidades lendárias
onde ecoa a voz dos imortais.

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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Uma dor que não é minha


Acampada no meu peito
vive uma aranha triste
tecendo os fios de névoa
de uma obscura teia.
Quando escrevo
desliza pela folhas do caderno
como uma viúva errante
a envenenar-me a caligrafia
e a cercar as silabas
com a luz cega do seu luto,
entoando uma melancolia
que me ata os pulsos
à seda sombria do seu choro
e me impele a declamar
numa vertigem de carvão calcinado
os versos mutilados
de uma dor que não é minha.

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