sábado, 30 de outubro de 2010

No silêncio do teu corpo adormecido



É quando dormes,
no silêncio arrefecido das noites profundas,
que desperta em mim
o esplendor amadurecido do teu rosto.
Envolto no musgo inocente dessa juventude gasta
bebo os resíduos palpitantes da tua respiração,
atravessando as colinas do teu corpo retalhado
onde revejo as encruzilhadas que cruzámos,
de mão dada,
contornando o vazio dos abismos
e fugindo às armadilhas traiçoeiras do deserto,
de oásis em oásis,
onde nos deitávamos à sombra do veneno dos dias.

Tão perto e tão longe te acho agora,
mergulhada nas margens de um rio cansado,
fechada numa concha obscura
no mais fundo que há em ti,
onde em silêncio digeres
lágrimas antigas que não derramaste.


Dormes.
Olhos pousados no espanto do infinito,
vagando na glória indefinida de um sonho,
construindo mundos atrás de uma porta entreaberta
onde buscas o equilíbrio
perdido no pesadelo escarlate das horas.
Moves-te, sem gestos,
num arfar sereno e perfumado;
pequenos gemidos que crescem no sono,
numa litania que te embala o corpo
e sobressalta a inocência da tua nudez
debruçada sobre as asas da madrugada.

Quase nada sei de ti.
Dos segredos que ocultas, nos labirintos do peito,
e que são só teus,
apenas vislumbro rumores desvanecidos
ecoando nos espelhos da ventania
que agitam, ao de leve, a tua sombra suspensa.
Embora tenha penetrado, vezes sem conta,
os abismos profundos do teu corpo,
em lentas e repetidas viagens
saciando o fogo de estranhos desejos,
e plantado na luz suave do teu ventre
as sementes que nos hão-de perpetuar,
quase nada sei de ti.

No silêncio amanhecido do quarto,
sigo os primeiros atalhos
da luz que esvoaça nos patamares
da tua respiração suspensa,
acordado a teu lado,
a soletrar as batidas do teu nome,
num sussurro de lençóis incendiados,
tecendo no brilho secreto do teu rosto
um rosário de eternas lembranças,

à espera que o sol se levante no horizonte
para vir saudar as núpcias do teu despertar.



poema escrito em 2010-06-26

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Último alento de um poeta moribundo


Imagino como será o derradeiro acto
da vida de um poeta caído em desgraça,
definhando num covil de trevas e abandono.
Alguém que, como eu, nunca foi capaz
de ultrapassar as barreiras do anonimato
e que sente o tempo fugir-lhe, irremediavelmente.
Consumido pelo peso de uma velhice precoce
ou pelo veneno de uma doença terminal,
vejo-o, num quarto acanhado e escuro,
uma alcova barata de pensão decadente,
a braços com o último alento de um corpo
cuja chama agoniza à sombra da glória.

Mergulhado nas convulsões de um alucinado torpor,
amaldiçoa o tempo inútil que foi gasto
à sombra de um caderno velho e rabiscado,
como um desterrado eremita do silêncio
nas obscuras profundezas de uma capela,
longe das multidões e do clamor prostituído da vida,
em busca de uma qualquer palavra escondida;
um verso novo que brilhasse no escuro,
uma estrofe que soasse a eternidade,
um poema que o projectasse definitivamente
para lá das paredes húmidas do quarto esconso.

Nada disso lhe interessa, agora que
uma agrafia obscura lhe tolhe as sílabas
e o tempo se esgota na ampulheta corrompida.
Nenhuma palavra poderá já redimir
todas as que lhe faltaram no tempo certo,
todas as oportunidades que deixou escapar,
todas as acções que nunca realizou;
por falta de coragem e determinação,
por falta de um rasgo de inspiração,
ou, simplesmente, por falta de arte.

Seu derradeiro combate é travado agora
muito para lá das margens gastas do papel,
num horizonte pantanoso e febril
onde se afunda toda a glória rejeitada.
Uma vertigem de sílabas dispersas e sem cadência.
Uma grotesca e perversa metáfora
que não cabe já no silêncio das suas palavras
nem rima com um sonho que loucamente teceu.

Derradeiro verso de um obscuro poema
Que jamais será revisto.





poema escrito em 2010-08-10

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Solstício de inverno



Ao fim do dia, a mente exausta
já só encontra palavras gastas
para seguir o declínio aparente
da derradeira luz que se extingue
num equinócio de primaveras corrompidas.

As pálpebras rangem
seguindo a cadência dos relógios
pendurados na monotonia das paredes,
num arrastado bocejo
à volta dos 12 signos do dia.

No hemisfério gélido das marés
a cinza derretida do luar
tinge veias rasgadas
de um caudal de anjos decapitados,
afundados
no estuário sombrio do meu voo.

O que resta de mim
é aquilo que a insónia do vento
deixou nos rebordos da pedra,
as longas noites de sombra
cobrindo a face do horizonte,
um ocaso de ruínas
engolindo meu corpo fatigado,
e interrompidas quimeras
de um solstício de moinhos petrificados.


poema escrito em 2010-10-17

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Invisível




Lentamente fui perdendo o pé
num éter de estranhas sensações.
Perdi o brilho e a cor,
dispersei-me nas asas do vento.
Afogado no gelo do vazio,
para lá da linha do horizonte,
entreguei meu corpo retalhado
às aves famintas do pântano,
segui o eco da tua ausência
e, finalmente, tornei-me invisível.





poema escrito em 2009-03-08

Extrema-unção




Suspenso sobre o pórtico exausto do abismo
cerca-te a vertigem derradeira do poente.
Dois braços estendidos em sinal de cruz
abrem caminho na cartilagem escura da noite,
onde amanhece um rumor de carpideiras,
entre o equilíbrio fugaz do último verso
e o silêncio súbito nas pálpebras do vento.



poema escrito em 2010-08-31

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Passaporte para novas dimensões




Todos os dias
vejo o sol nascer e se suicidar
no mesmo patíbulo sujo de sangue
e entranhas dilaceradas,
numa asfixiante perspectiva
despida de qualquer encanto.
Prisioneiro dos despojos das manhãs
e duma estranha geometria do vazio
vivo acorrentado ao pedestal gradeado,
como uma estátua de asas de chumbo,
sem respirar.

Vivo numa fornalha de incandescentes sensações
onde os sonhos se fundem,
atrofiados,
nas chagas rasgadas do entardecer,
sem saber ainda, se será teu corpo
passaporte para novas dimensões,
ou apenas o secreto desejo
de escapar, por momentos,
desta teia que o destino me bordou.






poema escrito em 2009-04-25

domingo, 10 de outubro de 2010

Infinita paciência do tempo



Não sei de onde vim, nem o que sou
por detrás desta máscara de terra batida;
pálido reflexo de anjo adormecido
no silêncio de um areal de trevas.
Sei apenas que vim de longe,
dos remotos desertos da existência
e da poeira moribunda dos séculos,
como um peregrino sem norte
na solitária busca de uma miragem
para lá dos horizontes de janelas interrompidas.

Nos meus braços enredam-se sonhos mortos
e uma teia de abismos encadeados,
e tudo parece tão anestesiado e distante
neste turvo cenário de labirintos cruzados
e decadentes enigmas sem solução,
onde, fria e ondulante,
se espraia a mordaça da solidão.

Sem revelar minha identidade,
sigo o apelo sufocante dos sentidos
no dobrar decrépito de sinos distantes,
sempre a fugir do naufrágio
e do sombrio perímetro do gelo,
iludindo o peso ancestral dos mitos
e a precoce morte das manhãs.
Sem poder voar,
atravesso a nado os penhascos da dor,
visto-me de dissimuladas aspirações
e me escondo na aparência gélida das estátuas,
forjando escudos de alento
no seio da mentira que me cerca,
em busca de dias melhores.

Digerindo o fúnebre veneno destes dias
e as carícias melancólicas do gelo
no vidro polido do meu rosto,
enterro meus segredos no bojo do areal,
desato os nós ensebados da indiferença,
e finjo sofrer da mesma alucinação colectiva
que tolhe os ossos paralisados dos espantalhos.

Só não consigo
iludir a infinita paciência do tempo.






poema escrito em 2010-05-01

Paisagem nocturna



Panos negros ondulam no parapeito das janelas.

Estranhos tambores rufam nos patíbulos do crepúsculo.

O carrasco dos sonhos desenha uma forca de silêncio
com as letras ensanguentadas do meu nome.

Um ranger de vozes e pedras soltas
percorre o restolho solitário dos meus passos;

algures, entre os declives acentuados do fosso
que separa as estrofes que nunca escrevi
e a mortalha de estacas que abraça o vazio
onde teço os últimos fios da paisagem nocturna.



poema escrito em 2010-08-15

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Álbum de família



Sobre o mogno escuro dos meus olhos
estendo o velho álbum de fotos de família
e deixo os mortos respirarem, por instantes,
a luz estagnada deste entardecer.

A preto e branco, os fantasmas da memória
regressam com seus fatos domingueiros,
sacudindo a poeira de uma resignada ausência.
As mulheres trazem sorrisos manchados de tristeza
evocando o fascínio das eras de outrora
sepultadas nas ruínas de uma névoa distante
e, os homens, cofiando longos bigodes,
conservam ainda o mesmo ar taciturno e pose viril.

Míticos rostos que perderam o dom da fala,
mas que as esponjas da morte não apagaram totalmente
lá nas tumbas frias e perdidas onde pernoitam.
Imagens que se acendem nas lareiras da saudade,
ao som melancólico de uma extinta banda de coreto,
rasgando véus e teias de um esconso abismo.

Durante algum tempo, suspendo a fúria dos relógios,
e deixo que os mortos, num pestanejar de cinzas,
cruzem as paisagens arruinadas da manhã,
recordando sua breve passagem pelo mundo;
antes de recolherem de novo ao vazio enclausurado
do abandono sombrio onde agora pertencem,
esgotando o brilho efémero que subitamente se dilui
no baque crepuscular da contracapa.


video


poema escrito em 2010-07-28

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lunáticos



nos jardins de chuva branca
poças de água estagnada
dão as mãos e digerem o vazio
com as asas a arrastar pelo chão

estilhaços dispersos de lucidez

lufada de bronze cuspida na cara

alucinante delírio de embarcações
encalhadas nas margens do rio


e três metros de solidão
num varal de cinzas, estendidos ao vento






poema escrito em 2010-07-30
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